Felipe Pontes

Posted on Thursday November 25th 2010 at 09:39pm. Its tags are listed below.

O Otimismo de Robert Capa //

Sem os trens de pouso, uma das “fortalezas voadoras” - o bombardeiro B17 - é obrigada a realizar um pouso forçado, de barriga, na base aérea norte americana de Chelveston, Inglaterra. Em prontidão, Robert Capa prepara sua Contax e, após o socorro ao resto da tripulação mutilada, captura o rosto em close do piloto que sai da aeronave, aparentemente ileso, a não ser por um ligeiro corte na testa. “Eram essas as fotos que você estava esperando, fotógrafo?”, condena o jovem oficial. Robert Capa, grande mito do fotojornalismo mundial, também teve que lidar com o dilema primordial do métier.  

“A pior coisa é sentir que como fotógrafo eu me beneficio da tragédia alheia”, escreveu certa vez James Nachtwey, um dos correspondentes de guerra mais conceituados da atualidade. Retratado no documentário War Photographer (2001), Nachtwey possui a personalidade amarga e séria facilmente atribuída a esses profissionais, testemunhas oculares das piores cenas de sofrimento humano. Já Capa, o homem, encontrava no humor a melhor forma de lidar com suas lembranças, transcritas por ele no texto memorial Ligeiramente fora de foco, relato sobre a experiência na II Guerra Mundial até agora inédito no Brasil, recém-lançado pela editora Cosac Naify.

Ao sair da Hungria aos 18 anos de idade, Capa acalentava o sonho romântico de ser escritor e repórter, o que de fato foi, antes de a fotografia entrar em sua vida. E ninguém com melhor conhecimento de causa para nos revelar seu incrível carisma como contador de histórias nato do que seu irmão, Cornell Capa, autor do prefácio da nova edição de Ligeiramente fora de foco. Tanto que recém-saído da guerra, Robert Capa levou seu charme aos bastidores de Hollywood e teve um caso com a grande estrela do cinema Ingrid Bergman, inspirando a trama do clássico filme Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock. Antes mesmo de estar perto de terminar de escrever suas memórias, o fotógrafo já as havia vendido a um editor nova-iorquino.

Lançado em julho de 1947, o livro recebeu excelentes resenhas e foi um sucesso entre os leitores, muito devido à irreverência do tom coloquial de Capa, em grande medida explicado pelo fato de boa parte do texto ter sido ditada. Isso nos permite perfeitamente imaginar estar ouvindo da boca do próprio autor, numa mesa de restaurante qualquer, o relato do que parece ser uma grande anedota, emoldurada por uma excitante história de amor. Ele “escrevera seu livro não para ser tomado como um documento histórico, mas sim para servir, com poucas alterações, de base para um roteiro de cinema interessante”, descreve Richard Whelan, autor da introdução da nova edição e amigo pessoal, editor e biógrafo de Capa.  

Mas a auto-ironia expressa já no título – uma avaliação honesta de uma das fotos mais célebres de Capa, a dos paraquedistas americanos saltando sobre a Sicília na invasão aliada de 1943, para ele ligeiramente fora de foco – não é suficiente para nos fazer esquecer de que o assunto principal da narrativa é o maior conflito armado da História. Morto em 1954 ao pisar em uma mina terrestre na Indochina, Capa leva até o fim a máxima criada por ele mesmo e adotada por sucessivas gerações de fotojornalistas: “se suas fotos ainda não estão boas o suficiente, é porque você ainda não está perto o suficiente”. Fosse na Inglaterra, no norte da África ou no sul da Itália, armado apenas com seu equipamento, sua preocupação constante foi sempre “chegar rapidamente ao cenário de guerra”, junto com o front, e por isso foi o único fotógrafo a por os pés na costa da França, dentre os quatro escolhidos para desembarcar na Normandia do dia D.  

Como não poderia deixar de ser, Ligeiramente fora de foco é não só uma narrativa verbal, como também visual. Sincronizadas na cronologia da história estão um número farto de imagens editadas pelo própria Capa. Mas ao contrário da maioria das fotografias de guerra, o mestre do fotojornalismo transparece nos quadros não a crueza de corpos esfacelados e sim um grande otimismo diante das situações mais desesperadoras, seja no balde que serve de mesa para a sagrada hora do chá em um abrigo anti-bomba inglês ou no homem com uma pá e um balde diante das gigantescas ruínas do prédio central dos correios, em Nápoles. Um reforço do mesmo otimismo e presença de espírito com que Capa narra as situações mais absurdas, a começar por ter conseguido se cadastrar correspondente de guerra no Exército dos Estados Unidos, mesmo sendo húngaro, nacionalidade inimiga dos aliados.

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