Felipe Pontes

Uma seleção em ordem cronológica de textos publicados pela web. Notícias, matérias, entrevistas, aberturas e resenhas. Bem vindo ao meu portfolio online. Para ir ao início, favor clicar na seta à direita -->

Este filme é um deboche. Um deboche interessante da arte e do audiovisual com relances de streetart. O deboche começa pelo trailer. O protagonista do filme não é a arte de rua.

Aug 14

Cru como só Scola sabe ser. Sobre o desapego da arte. Ornela Mutti mi amore.

Aug 14

Quem quer ser primeiro?! Belíssimas demonstrações de perseverança humana (que fazem o filme valer) cooptadas pela narrativa do sistema.

Aug 14

"Me cansei do cansaço / de não buscar o meu mais sincero / porque dói demais”.

Estes são os primeiros versos de “Religar”, a canção que dá nome ao disco de Leo Cavalcanti, e anunciam a entrega com que o artista apresenta o seu trabalho de estreia.

As 14 canções reunidas neste álbum revelam um mergulho sincero nos seus próprios questionamentos, a busca por autoconhecimento e a descoberta de um mundo que não pode ser racionalizado. A estética aqui é a do afeto – é hora de “tirar da mente e por no coração”. Leo se apresenta com a coragem de um sonâmbulo que simplesmente vai, convicto de que o caminho mais rico é rumo ao mistério.

“Tudo o que as letras dizem, parece que eu vivi o contrário. “Medo de olhar para si”, a canção que fecha o disco, fala disso. Eu tive muito medo de olhar para mim”, conta Leo, em um passeio de carro pelo Rio de Janeiro, rumo ao Mirante do Rato Molhado, em Santa Teresa, cenário onde cantou algumas canções de seu novo disco com exclusividade para o SaraivaConteúdo.

Lançado no finalzinho de 2010, o disco traz o resultado do amadurecimento de canções surgidas paulatinamente ao longo dos últimos cinco anos, maturadas de forma solitária. O processo de concepção musical teve início no estúdio do pai, o compositor Péricles Cavalcanti.

“A solidão, a coisa do estúdio caseiro, de começar a gravar sozinho, a pensar no arranjo, e ter essa gana mesmo de participar de todos os processos do disco, acabou gerando mesmo uma coisa individual. Sinto que o disco é justamente essa passagem, do interno pro externo, do individual pro coletivo”, afirma Leo.

Dar ouvidos às canções depois de prontas, encadeadas em um disco, foi mais uma etapa deste ciclo. “Acabei reaprendendo com as músicas. Isso é muito legal, ver que a canção tem uma vida própria, ela não me pertence, sabe? Ela brota de mim, mas eu aprendo com ela”, avalia o compositor.

Após o período sozinho, foram mais nove meses em estúdio junto com Décio 7 e Cris Scabello. Este tempo foi necessário para esculpir os múltiplos níveis de sonoridade, compostos por até seis camadas de vozes que se unem a instrumentos tão diversos quanto guitarras, violinos, castanholas, trompetes, bandolins, violoncelos, alaúdes e beatbox. 

O resultado veio com personalidade, capaz de destacá-lo na efervescente cena paulistana. A revista Manuscrita, por exemplo, numa metódica e criteriosa seleção dos cem melhores álbuns nacionais de 2010, alçou o disco de Leo Cavalcanti ao topo da lista, acima de outras novidades badaladas como Karina Buhr, Marcelo Jeneci e Tulipa Ruiz. Aliás, os dois últimos fazem participações no disco de Leo. Tulipa canta lindamente em “Sem (des)esperar” e Jeneci toca piano na faixa “Acaso”. 

Sobre o cenário musical atual e seus colegas de geração, Leo enxerga passos originais em muito do que está chegando ao público: “Está havendo um momento em que não se quer reproduzir o que foi feito, e isso está bem presente nas intenções mesmo. Cada um tem o seu lance e é isso que faz ficar genuíno e cool de verdade, muito de verdade. Eu vejo muita sinceridade nesse momento e me parece que esse é o material principal para fazer música”, finaliza. 

Quanto ao que vem pela frente em sua carreira, melhor não fazer muitos prognósticos. O autor dos versos “Mas agora eu sei / que o acaso é meu rei” segue sincero e se entrega ao grande mistério.

*com Marcio Debellian / foto de Tomás Rangel

Feb 02
"Me cansei do cansaço / de não buscar o meu mais sincero / porque dói demais”.

Estes são os primeiros versos de “Religar”, a canção que dá nome ao disco de Leo Cavalcanti, e anunciam a entrega com que o artista apresenta o seu trabalho de estreia.



As 14 canções reunidas neste álbum revelam um mergulho sincero nos seus próprios questionamentos, a busca por autoconhecimento e a descoberta de um mundo que não pode ser racionalizado. A estética aqui é a do afeto – é hora de “tirar da mente e por no coração”. Leo se apresenta com a coragem de um sonâmbulo que simplesmente vai, convicto de que o caminho mais rico é rumo ao mistério.



“Tudo o que as letras dizem, parece que eu vivi o contrário. “Medo de olhar para si”, a canção que fecha o disco, fala disso. Eu tive muito medo de olhar para mim”, conta Leo, em um passeio de carro pelo Rio de Janeiro, rumo ao Mirante do Rato Molhado, em Santa Teresa, cenário onde cantou algumas canções de seu novo disco com exclusividade para o SaraivaConteúdo.



Lançado no finalzinho de 2010, o disco traz o resultado do amadurecimento de canções surgidas paulatinamente ao longo dos últimos cinco anos, maturadas de forma solitária. O processo de concepção musical teve início no estúdio do pai, o compositor Péricles Cavalcanti.



“A solidão, a coisa do estúdio caseiro, de começar a gravar sozinho, a pensar no arranjo, e ter essa gana mesmo de participar de todos os processos do disco, acabou gerando mesmo uma coisa individual. Sinto que o disco é justamente essa passagem, do interno pro externo, do individual pro coletivo”, afirma Leo.



Dar ouvidos às canções depois de prontas, encadeadas em um disco, foi mais uma etapa deste ciclo. “Acabei reaprendendo com as músicas. Isso é muito legal, ver que a canção tem uma vida própria, ela não me pertence, sabe? Ela brota de mim, mas eu aprendo com ela”, avalia o compositor.



Após o período sozinho, foram mais nove meses em estúdio junto com Décio 7 e Cris Scabello. Este tempo foi necessário para esculpir os múltiplos níveis de sonoridade, compostos por até seis camadas de vozes que se unem a instrumentos tão diversos quanto guitarras, violinos, castanholas, trompetes, bandolins, violoncelos, alaúdes e beatbox. 



O resultado veio com personalidade, capaz de destacá-lo na efervescente cena paulistana. A revista Manuscrita, por exemplo, numa metódica e criteriosa seleção dos cem melhores álbuns nacionais de 2010, alçou o disco de Leo Cavalcanti ao topo da lista, acima de outras novidades badaladas como Karina Buhr, Marcelo Jeneci e Tulipa Ruiz. Aliás, os dois últimos fazem participações no disco de Leo. Tulipa canta lindamente em “Sem (des)esperar” e Jeneci toca piano na faixa “Acaso”. 



Sobre o cenário musical atual e seus colegas de geração, Leo enxerga passos originais em muito do que está chegando ao público: “Está havendo um momento em que não se quer reproduzir o que foi feito, e isso está bem presente nas intenções mesmo. Cada um tem o seu lance e é isso que faz ficar genuíno e cool de verdade, muito de verdade. Eu vejo muita sinceridade nesse momento e me parece que esse é o material principal para fazer música”, finaliza. 



Quanto ao que vem pela frente em sua carreira, melhor não fazer muitos prognósticos. O autor dos versos “Mas agora eu sei / que o acaso é meu rei” segue sincero e se entrega ao grande mistério.



*com Marcio Debellian / foto de Tomás Rangel

Motor propulsor do foguete, chuva que germina, ideólogo, avant la lettre, profeta. Nos depoimentos dos amigos de Jorge Mautner que estiveram no Circo Voador para homenageá-lo pelo seu aniversário de 70 anos, no último dia 17 de janeiro, é que comprovamos sua importância como agitador de mentes criativas. Não basta ter talento se não há um propósito e na peculiar coerência de seu discurso, repleto de citações a José Bonifácio, Walt Whitman e Benedito Valadares, Mautner serve de norte magnético, canalizando para objetivos civilizatórios a energia criativa dos tropicalistas, dos poetas marginais e das companhias de teatro da periferia.

“O Jorge tem sido fundamental, porque ele é um processador entusiasmado dessas coisas, dessas interpretações, leituras profundas sobre o significado da política, da arte, da filosofia, da literatura, da ciência”, diz Gilberto Gil. “E eu fiquei embevecido com essa inteligência”, avisa Jards Macalé. Uma força que alçou os amigos a um sucesso capaz de atrair multidões, gente que trabalha no dia seguinte e lotou o Circo Voador em plena segunda-feira. “A gente estimula isso, nosso objetivo é estimular estes novos degenerados, dessa geração de vocês”, completa Macalé.

Filho do Holocausto – esse o título de um de seus livros e também do documentário sobre sua vida, preparado pelo jornalista Pedro Bial e com previsão de lançamento para esse semestre –, Jorge Mautner nasceu no Rio de Janeiro em 17 de janeiro de 1941, no seio de uma família judia austríaca refugiada no Brasil. Aprendeu música com o padrasto violinista e já em 62, publicou Deus da Chuva e da Morte, o primeiro livro. De 1963 até o dia do golpe de 64, Mautner manteve uma coluna diária no jornal Última Hora, o que o levou ao exílio em Londres, onde conheceu Caetano, Gil e companhia. Lá produziu o filme Demiurgo, no qual já resume o que hoje é conhecida como Teoria do Kaos. No primeiro disco gravado, Para iluminar a cidade, de 1972, aparecia o sucesso Maracatu atômico, composta com a inseparável parceria de Nelson Jacobina. A partir daí vieram os discos Bomba de Estrelas (de 1981 relançado pela Warner em 1995), Pedra bruta (1992), Revirão,produzido por Berna e Kassin (1997), sem falar na poesia e prosa em constate produção que garantiram o culto à sua personalidade solar e a reverência dos colegas.

A princípio podem parecer confusas aos não iniciados, mas aqueles que recebem de boa vontade as palavras de Mautner não podem deixar de notar sua lucidez, seja para pausar e lembrar que em meio à festa o Rio de Janeiro se encontrava atingido por uma tragédia – que vitimou um dos parceiros dele e Nelson Jacobina, o pianista Mario Jansen -, seja para explicar o que é a amálgama brasileira ou o Kaos com K. 


O que significa esse dia, estes 70 anos para você? Acabamos de ver a passagem de som, teus amigos, a Orquestra Imperial, com quem já toca há bastante tempo…

Jorge Mautner. De um lado, é uma homenagem ao meu aniversário, né? Mas é a junção de vários estilos, várias épocas, idades, gerações, vários ritmos. Representa a amálgama que somos – eu sempre falo –, do José Bonifácio de Andrade, ele disse isso em 1823. E num momento em que o Brasil tem importância total para a sobrevivência da espécie. Aqui nós temos que civilizar o mundo para não ter ódio um dos outros, aqui árabes e judeus às vezes são sócios juntos. Mas não é só por isso, é pela extrema criatividade que esse Brasil é o mais original de todos, é um continente. 

Meu coração está pulando, estou até contendo a emoção, porque emoção demais você embaralha… [risos] E é uma coisa muito impressionante ter esses amigos reunidos, essa garotada. E o que me dá mais felicidade é ver o Brasil avançando na democracia, nos direitos humanos e a liderança das mulheres, nossa presidente Dilma e a ministra da Cultura, artista também, Ana de Hollanda. Aqui não tem partido, só não pode ser nazista, tem reunião de todo tipo de ideologia. E ocorre numa época triste, por causa das enchentes. Tenho que falar disso, perdemos um amigo, meu e do Nelson Jacobina, com quem fizemos um disco, Mario Jansen, que faleceu. E todo mundo tem uma pessoa amiga, e mesmo que não tenha, se identifica. Mas temos a obrigação de fazer essa festa, porque esse é o Brasil, [é preciso] dar a volta por cima. 

Uma coisa latente no depoimento dos seus amigos é a sua capacidade de irrigar, irradiar com suas ideias e pensamentos, que foi muito importante para eles lá no momento em que você se conheceram, no fim dos anos 1960, em Londres… 

Mautner. Aí a informação é interatividade, essa palavra já existia. Então um influencia o outro. Eu sou filho do Holocausto. Nasci aqui um mês depois que meus pais chegaram, a família por parte de pai e mãe toda vitimada. A minha felicidade é total e esse meu modo de ficar fazendo a cabeça é porque sou ideólogo, acho que a arte tem que transformar a sociedade, só que não é uma visão dogmática. É uma visão aberta e a liberdade do indivíduo, de expressão são sagradas. Tudo isso é história e ela é sempre uma surpresa. Já dizia Benedito Valadares, “na prática, a teoria é outra”. Então temos que se amoldar à prática. 

E acho que o Brasil está na frente, dando aulas ao mundo. E cito na música que fiz com Gilberto Gil, “Outros viram”, vários que prenunciaram este Brasil. Mas o principal, por ser o maior poeta ufanista dos Estados Unidos, Walt Whitman, depois de elogiar os Estados Unidos e sua democracia, disse: “No entanto, o vértice da suprema humanidade será o Brasil”. Ele já tinha sacado isso, ele e muitos outros, Stefan Zweig, Maiakovski, Kierkegaard. Muita gente, até os índios tupis guaranis, vieram aqui, 150 anos antes da chegada dos portugueses, à procura da terra sem males. Também eles. E nossos índios, nossos ancestrais são proto ou pré-civilização hindu. Proto ou pré de todo o taoísmo que vai surgir. E a famosa preguiça era já a visão que iria nascer do taoísmo, o wu wei, a ação da não ação. 

E onde entra o Kaos? 

Mautner. Olha, não é caos com “c”, mas Kaos com “k”. A realidade é o caos. O que a natureza? Laboratório de hecatombes, zoologia do triunfo do mais forte, uma visão social de repartir tudo, e isso é reinterpretado a todo instante. E o Kaos já é a tentativa de controle para que todo esse caos se dirija para o bem, para o engrandecimento humano, ainda mais hoje em dia, quando estamos no limiar do ser humano novo, sem doenças, através da ciência, da longevidade indefinida. Mas o mais importante é amor, por isso repito que São Paulo disse: “Mesmo quando não houver mais nem fé nem esperança, o amor continuará a resplandecer no Universo”.

>Mais sobre o dia da festa? Leia aqui.

Jan 18

A crônica, como o futebol, não foi criada no Brasil, mas é aqui que ela se desenvolveu melhor. Isso quem diz é o jornalista e escritor mineiro Humberto Werneck, organizador, entre outras coisas, da criteriosa coletânea Boa Companhia – Crônicas (Companhia das Letras, 2005). Antonio Prata o cita e vai além com as analogias, comparando o gênero à modalidade futebol de salão, onde é preciso fazer dribles em um espaço curto e chutar reto no gol, quer dizer, ir direto ao ponto. Ele continua: “Os dois esportes se desenvolveram na várzea, o futebol na várzea dos rios e a crônica na várzea da literatura, que é nesse lugar meio obscuro entre o jornalismo e a literatura…”

Foto de Tomás Rangel

Típica conversa de meio intelectual, meio de esquerda, estilo de ser personificado em Antonio Prata. Um dia estudante de cinema, filosofia e ciências sociais – sem nunca concluir nenhum dos cursos -, há dois meses o jovem escritor e roteirista lançou mais uma coletânea de crônicas, dessa vez selecionadas entre as publicadas desde 2004 no jornal Estado de S. Paulo. Meio intelectual, meio de esquerda (Editora 34, 2010) veio sacramentar o que todo mundo já desconfiava. Eis alguém apto a assumir a responsabilidade por algo que desde o século XIX descontrai a imprensa brasileira: o exercício de achar surpresa em coisas aparentemente singelas e óbvias do dia a dia. 

Sejam sobre tomates, meias, a barriga do Ronaldo, os comentários sobre o clima, a assinatura de um escrivão de cartório, ou, simplesmente, a própria morte - a maior obviedade de todas -, os textos de Antonio Prata chegam a lembrar a mesma espécie de feeling que encontramos em alguns mestres nessa arte sutil, como Rubem Braga, Millôr Fernandes, Fernando Sabino, Luis Fernando Verissimo, Paulo Mendes Campos, Sergio Porto e… Mario Prata.

“Primeiro eu achava que meu pai era dono de uma fábrica de chocolates”, recorda Antonio, nascido em 1977, filho de Mario, esse sim completamente de esquerda, jovem escritor em época ideologicamente mais polarizada do que a atual. Ainda criança, Pratinha, como é chamado pelos amigos, ouvia os pais conversarem sobre uma certa Fábrica de Chocolates e ficava ressentido por Prata pai não lhe presentear com o cacau doce com a freqüência que julgava justa. Mal sabia ele que os adultos falavam de uma dentre as mais de uma dezena de peças escritas por Mario, logo uma cujo tema é a tortura. “Só mais tarde fui entender que ele era escritor. Via ele trabalhando, datilografando à máquina e tal”, conta Antonio. “Muita gente acha que a literatura é uma espécie de desvio. As pessoas perguntam ‘quando você decidiu ser escritor?’ quase como se eu tivesse que sair do armário, e na minha casa esse armário já estava aberto e todo mundo já estava dentro dele ali, ou fora dele, enfim”, arremata o assunto.

Foi aos dezenove anos que Antonio Prata encontrou numa livraria o escritor Fernando Bonassi – roterista de programas infantis cultuados da TV Cultura, como Castelo Rá-Tim-Bum e O Mundo da Lua, e autor de dezenas de livros – e disse que tinha uns textos prontos e coisa e tal. Bonassi estranhou logo o jovem ainda não ter publicado um livro – “manda pra uma editora, eles publicam qualquer merda que a gente mandar. Não vende nada, mas publicar é fácil”, aconselhou o mais velho e experiente. Do episódio Antonio extraiu a gana para iniciar a carreira com o bem recebido livro de contos Douglas e outras histórias (Azougue, 2001). Depois vieram As pernas da tia Corália (Objetiva, 2003) e O inferno atrás da pia (Objetiva, 2004).

Pão com queijo da maioria dos que desejam viver da escrita em terras tupiniquins, as crônicas começaram numa revista da MTV e logo surgiu o convite para escrever para a revista Capricho, onde permaneceu até 2008 e cativou toda uma geração de fãs adolescentes. As melhores crônicas desse período podem ser encontradas nas coletâneas sugestivamente entituladas Estive pensando… (Marco Zero, 2003) e Adulterado (Moderna, 2009).

Por sua vez, o título de Meio intelectual, meio de esquerda (Editora 34, 2010) é extraído da primeira frase do grande hit de Antonio Prata: Bar ruim é lindo, bicho, único texto no livro publicado primeiramente na internet, no site Blônicas, e logo espalhado como fogo em palha entre os que vestiram a carapuça. Trata-se de uma crônica que já passou ao imaginário coletivo, mas não se sabe se essa terá sido a motivação para que a recém-lança da coletânea tenha sido incluída entre os dez livros brasileiros fundamentais da década, na lista composta em dezembro pela revista Bravo! 

Prata demonstra lucidez em ser considerado “o melhor cronista de sua geração”: “Num país que tem uma classe média grande, a Espanha, Inglaterra ou Estados Unidos, um aut or vender 50 mil exemplares diz alguma coisa. No Brasil, como ninguém vende nada, quem vende a crítica não gosta, pinçar quem é bom, quem é importante, acaba na mão de jornalistas e de críticos que escolhem esse ou esse. Fica uma geléia ali e só daqui a u m tempo vamos saber quem é importante”, frisa ele. 

Enquanto esse tempo não chega, Antonio Prata segue os trabalhos, seja adaptando um dos textos teatrais do pai – Purgatório (1984) – para o cinema, lapidando o primeiro ro mance, encomenda da coleção Amores Expressos da Companhia das Letras, ou prosseguindo com as crônicas, que a partir deste mês de janeiro passam a sair na Folha de São Paulo, no oportuno caderno Cotidiano, sempre às quartas-feiras. 

*com a colaboração de Bruno Dorigatti

Jan 07

O Otimismo de Robert Capa //

Sem os trens de pouso, uma das “fortalezas voadoras” - o bombardeiro B17 - é obrigada a realizar um pouso forçado, de barriga, na base aérea norte americana de Chelveston, Inglaterra. Em prontidão, Robert Capa prepara sua Contax e, após o socorro ao resto da tripulação mutilada, captura o rosto em close do piloto que sai da aeronave, aparentemente ileso, a não ser por um ligeiro corte na testa. “Eram essas as fotos que você estava esperando, fotógrafo?”, condena o jovem oficial. Robert Capa, grande mito do fotojornalismo mundial, também teve que lidar com o dilema primordial do métier.  

“A pior coisa é sentir que como fotógrafo eu me beneficio da tragédia alheia”, escreveu certa vez James Nachtwey, um dos correspondentes de guerra mais conceituados da atualidade. Retratado no documentário War Photographer (2001), Nachtwey possui a personalidade amarga e séria facilmente atribuída a esses profissionais, testemunhas oculares das piores cenas de sofrimento humano. Já Capa, o homem, encontrava no humor a melhor forma de lidar com suas lembranças, transcritas por ele no texto memorial Ligeiramente fora de foco, relato sobre a experiência na II Guerra Mundial até agora inédito no Brasil, recém-lançado pela editora Cosac Naify.

Ao sair da Hungria aos 18 anos de idade, Capa acalentava o sonho romântico de ser escritor e repórter, o que de fato foi, antes de a fotografia entrar em sua vida. E ninguém com melhor conhecimento de causa para nos revelar seu incrível carisma como contador de histórias nato do que seu irmão, Cornell Capa, autor do prefácio da nova edição de Ligeiramente fora de foco. Tanto que recém-saído da guerra, Robert Capa levou seu charme aos bastidores de Hollywood e teve um caso com a grande estrela do cinema Ingrid Bergman, inspirando a trama do clássico filme Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock. Antes mesmo de estar perto de terminar de escrever suas memórias, o fotógrafo já as havia vendido a um editor nova-iorquino.

Lançado em julho de 1947, o livro recebeu excelentes resenhas e foi um sucesso entre os leitores, muito devido à irreverência do tom coloquial de Capa, em grande medida explicado pelo fato de boa parte do texto ter sido ditada. Isso nos permite perfeitamente imaginar estar ouvindo da boca do próprio autor, numa mesa de restaurante qualquer, o relato do que parece ser uma grande anedota, emoldurada por uma excitante história de amor. Ele “escrevera seu livro não para ser tomado como um documento histórico, mas sim para servir, com poucas alterações, de base para um roteiro de cinema interessante”, descreve Richard Whelan, autor da introdução da nova edição e amigo pessoal, editor e biógrafo de Capa.  

Mas a auto-ironia expressa já no título – uma avaliação honesta de uma das fotos mais célebres de Capa, a dos paraquedistas americanos saltando sobre a Sicília na invasão aliada de 1943, para ele ligeiramente fora de foco – não é suficiente para nos fazer esquecer de que o assunto principal da narrativa é o maior conflito armado da História. Morto em 1954 ao pisar em uma mina terrestre na Indochina, Capa leva até o fim a máxima criada por ele mesmo e adotada por sucessivas gerações de fotojornalistas: “se suas fotos ainda não estão boas o suficiente, é porque você ainda não está perto o suficiente”. Fosse na Inglaterra, no norte da África ou no sul da Itália, armado apenas com seu equipamento, sua preocupação constante foi sempre “chegar rapidamente ao cenário de guerra”, junto com o front, e por isso foi o único fotógrafo a por os pés na costa da França, dentre os quatro escolhidos para desembarcar na Normandia do dia D.  

Como não poderia deixar de ser, Ligeiramente fora de foco é não só uma narrativa verbal, como também visual. Sincronizadas na cronologia da história estão um número farto de imagens editadas pelo própria Capa. Mas ao contrário da maioria das fotografias de guerra, o mestre do fotojornalismo transparece nos quadros não a crueza de corpos esfacelados e sim um grande otimismo diante das situações mais desesperadoras, seja no balde que serve de mesa para a sagrada hora do chá em um abrigo anti-bomba inglês ou no homem com uma pá e um balde diante das gigantescas ruínas do prédio central dos correios, em Nápoles. Um reforço do mesmo otimismo e presença de espírito com que Capa narra as situações mais absurdas, a começar por ter conseguido se cadastrar correspondente de guerra no Exército dos Estados Unidos, mesmo sendo húngaro, nacionalidade inimiga dos aliados.

Nov 25

O apartamento em São Conrado, bairro de classe alta do Rio de Janeiro, não fica virado para o mar, mas de fundos, com vista privilegiada para a favela da Rocinha; solícito, Luiz Eduardo Soares atende em casa. Emendou uma entrevista atrás da outra. De uma sobre assuntos gerais, em especial o futebol, dada a um colega blogueiro da Polícia Federal, embarcou praticamente sem interrupção na conversa com o SaraivaConteúdo, dessa vez sobre a sua trajetória política e literária. Pioneiro no estudo das políticas de segurança pública no Brasil, o antropólogo escreveu seis livros, entre eles o best-seller Elite da Tropa(Nova Fronteira) e, o mais recente, Elite da Tropa 2 (Nova Fronteira) - ambos como co-autor.

Desde 1974, a ocupação principal de Soares é a pesquisa e o ensino em ciências sociais. Lecionou antropologia na Unicamp no início dos anos 1980 e durante 15 anos foi professor de ciência política no respeitado Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Hoje coordena a especialização em segurança pública da Universidade Estácio de Sá e dá aulas na pós-graduação em direitos humanos e ciências sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Mas na sala de estar forrada de livros, há quase nada de bibliografia teórica. A grande maioria dos títulos é de ficção, um vasto acervo de literatura nacional e estrangeira.

Uma das prateleiras, inclusive, é dedicada aos romances gráficos, as histórias contadas em quadrinhos. “O primeiro artigo que eu publiquei nos anos setenta foi sobre a linguagem em quadrinhos - na época isso estava ligado a poema-processo, aos concretos, havia um interesse na valorização de novas linguagens”, diz ele, que teve sua primeira formação na área de letras e prepara para o início de 2011 o próximo livro, uma não-ficção sobre a trajetória de um famoso traficante internacional de drogas. O respectivo graphic novel, desenhado pelo artista gráfico Marcus Wagner, sai no segundo semestre do ano que vem.

O segundo artigo publicado por Soares, ainda em 1974, foi sobre a criação de Asdrúbal trouxe o trombone, importante grupo de teatro de vanguarda do qual fez parte. Fica evidente assim um traço característico de sua competência como intelectual: ao mesmo tempo em que procura se envolver na linha de frente de um pensamento prático-político realmente efetivo, se empenha com a mesma desenvoltura no campo da cultura e da arte. 

Já comprovada por crítica e público a capacidade dos discursos tanto do livro (Elite da Tropa) quanto do filme (Tropa de Elite) em despertar discussões para além do mero entretenimento, Soares nos expõe um projeto consciente de militância em um plano simbólico, de intenção artística e política. Desde o início ele se dispôs a construir uma tetralogia da violência urbana, dedicada a matizar os estereótipos dos diferentes personagens envolvidos nesse cenário. Através de testemunhos numa linguagem narrativa, a ideia é que um público vasto seja capaz de compreender e vivenciar uma empatia com os dramas humanos descritos ali.

“Veja que curioso, do ponto de vista de vários filósofos, psicólogos e estudiosos do fenômeno da ética, o que constitui a moralidade como campo é a capacidade de deslocamento imaginário para a posição do outro”, ensina Soares. Essa estratégia discursiva é o principal ponto de contato entre as obras audiovisual e escrita, já que em termos de conteúdo, apesar de o Capitão Nascimento (Wagner Moura) ilustrar a capa do livro, os dois trazem tramas independentes.

Elite da Tropa 2 (Nova Fronteira) tem como narrador um ex-delegado da Delegacia de Combate ao Crime Organizado da Polícia Civil, a Draco. Condenado por um acidente a permanecer em uma cadeira de rodas, ele encontra alívio para sua imobilização em escrever os casos de violência operados pela milícia no Rio de Janeiro. Engana-se quem se precipita em classificar o livro apenas como uma espécie pulp fiction de ação. Por meio até de uma perfil no Twitter, o narrador denuncia o lado podre das polícias.

Funcionando como um catalisador, Soares mobilizou uma série de personalidades um tanto diferentes em prol da realização de seu projeto estético-político. Começou em 2005 com Cabeça de Porco (Objetiva), escrito em co-autoria com MV Bill e Celso de Athayde, cujas visitas a comunidades pobres de diferentes metrópoles brasileiras, entrevistando jovens cooptados pela vida criminosa, resultaram também no chocante documentário Falcão – meninos do tráfico (disponível na íntegra no YouTube). Partiu então para explorar o ponto de vista do policial, lançando em 2006, ao lado dos policiais militares André Batista e Rodrigo Pimentel, o primeiro Elite da Tropa (Nova Fronteira). A seguir, explorou o universo do judiciário em Espírito Santo (Objetiva), escrito em parceria com o juiz e ex-secretário de segurança capixaba Rodney Rocha Miranda em 2009. E saiu agora a pouco o Elite da Tropa 2, em que retoma a perspectiva dos agentes de segurança em situações ficcionais largamente inspiradas em acontecimentos verdadeiros.

 

Quando um chamado ‘bonde’ de traficantes fortemente armados, que retornavam de uma festa no Vidigal para a Rocinha, acabou se confrontando com a polícia nas ruas de São Conrado em plena manhã de sábado de 21 de agosto deste ano, resultando na invasão do hotel Intercontinental, Luiz Eduardo Soares foi o homem que relatou o que acontecia, praticamente em frente ao condomínio onde mora, no calor da hora, ao vivo pela rádio CBN. O episódio serve para ilustrar a posição de referência do antropólogo quando se fala em violência urbana. Nos trechos da entrevista ao SaraivaConteúdo transcritos abaixo ele conta sobre o surgimento dos dois Elite da Tropa e nos dá uma aula sobre as verdadeiras intenções de sua obra literária.

 Como você acabou se dedicando mais a literatura? 

Luiz Eduardo Soares. Eu sou professor universitário há 35 anos na área de antropologia e ciência política. Mas eu me formei em literatura na graduação, então sempre mantive um interesse grande e uma proximidade com amigos dessa área, com a produção, e sempre acompanhei a crítica literária. Isso sempre esteve presente. Em 1996 eu escrevi um romance, chamado Experimento de Avelar (Relume Dumara). Depois, nos anos 2000, eu comecei a ter a oportunidade de experimentar a combinação da minha formação acadêmica com esse interesse por outras linguagens, e acho que isso que foi importante para mim.  Eu me aproximei do tema segurança pública e violência nos anos oitenta, porque era já um tema muito importante no Rio e havia não muita gente envolvida nisso. Isso como pesquisador, estudioso, escrevendo sobre o assunto e etc., o que acabou me levando para o governo, primeiro como consultor, depois até assumindo responsabilidade de gestão. Um caminho mais ou menos natural.

Quando eu tive a oportunidade de mergulhar na prática da gestão e atuar por dentro dos bastidores, e como tive a vida inteira o olhar de pesquisador, de observador, assim como o interesse em escrever usando outras linguagens além da acadêmica, houve essa confluência. Eu tomei a minha experiência nos governos, assim como tomava antes as pesquisas, como base para a elaboração de trabalhos e aí começam esses textos que me aproximam de outras linguagens.

Como você conheceu os colaboradores de Elite da Tropa 2?

 Soares. Os primeiros que eu conheci foramo Rodrigo Pimentel e o Cláudio Ferraz. Quando eu estava no governo em 1999, convidei o Cláudio para dirigir a reforma da perícia e nos tornamos ali amigos. O Pimentel se tornou um personagem público através do documentário Notícias de uma guerra particular (João Moreira Salles, 1999). Ele se destacava ali e o que ele disse deu nome ao filme e abriu perspectiva de um certo tipo de entendimento. Ele é um sujeito muito inteligente e muito corajoso. E depois que falou com o João, nunca parou de falar e colecionava punições. Ele não queria ir muito longe na carreira porque não estava disposto a negociar sua liberdade e não aceitava a censura. Por isso, volta e meia era preso. Quando fui para o governo em 1999 ele deu uma entrevista de página inteira ao Jornal do Brasil me criticando e criticando a política de segurança pública. Quando eu li, pensei “puxa, esse rapaz é sensacional”. Porque o problema não é concordar ou discordar. O problema é discutir com inteligência, mostrar interesse por aquilo e ser capaz de dialogar. Isso é extraordinário. Se todos os policiais fizessem esse esforço de reflexão e crítica, estaríamos num outro mundo. Isso á maravilhoso. Ele foi preso. Naquela mesma noite falei com o comandante geral da PM que eu queria que ele não só fosse libertado como viesse trabalhar comigo, eu ia convidá-lo. Entre a cela e coordenadoria, ele topou e nos tornamos amigos.

Como surgiu a ideia de escrever o Elite da Tropa?

Soares. Surgiu em 2002, no projeto da tetralogia. O primeiro seria fazer o mergulho com Celso [de Athayde] e [MV] Bill, o Cabeça de Porco (Nova Fronteira), e o segundo no universo da polícia, do BOPE e tal. Lançamos o Cabeça em 2005 e tive que começar logo o outro. Liguei para o Pimentel e falei “vamos fazer?”, e ele sugeriu o Batista também. Eu conhecia o Batista de fato desde 2002. Ele já era do BOPE e trabalhava na segurança pessoal do secretário [de segurança]. O encontrei várias vezes, uma pessoa simpática, tinha ótimas informações e tive uma boa impressão sobre ele. E o Pimentel falou “chama o Batista também, porque está querendo nos ajudar no filme que o Padilha está querendo fazer, não um documentário como pensou de início, mas uma ficção com base documental sobre a policia. O Padilha está chamando o Batista também porque ele tem uma história pessoal incrível”, e tal. Fomos almoçar com o Zé [Padilha] e ele já estava trabalhando na primeira versão do roteiro e já tinha o nome Tropa de Elite, aí eu falei do meu projeto e disse “bom, vamos fazer, as fontes podem ser as mesmas, isso pode ficar interessante e o nome vai ser Elite da Tropa, vamos citar, vamos fazer dessa maneira, mas com autonomia”. O projeto que eu apresentei à editora Objetiva em 2002 previa justamente isso, outro livro comigo e mais duas pessoas, envolvidas no universo em questão, como autores. Então nasceu assim, desse projeto de 2002 e dessa relação antiga com o Pimentel, como contei.

E como se deu esse processo de criação coletivo?

Soares. Em nenhum caso eu analisaria os outros dois, ou agiria como um intelectual que estuda o relato dos outros dois, não seria essa a relação. No Cabeça de Porco, por exemplo, cada um de nós assina seus próprios capítulos e eu não analiso nenhum deles, nós dialogamos, trocamos ideias mesmo, é um livro composto, um mosaico. No Elite da Tropa, a mesma coisa, eu escreveria todo o livro, mas faríamos esse mergulho numa perspectiva narrativa e as histórias viriam de nós três, de fato as nossas vivências. E ali é muito claro, as vivências, depoimentos, coleta de depoimentos dos dois [Batista e Pimentel] estão lá na primeira parte. A minha história, o meu depoimento ficcionalizado, está na segunda parte, mesmo que eu escrevesse todo o livro, porque ali a metodologia teve que ser diferente.

Então desde sempre a ideia foi fazer livros de ficção?

Soares. Não, nossa ideia era contar a verdade, a realidade daquilo que havíamos vivido, porque nós achávamos que a população de uma forma geral não tem a menor ideia do que acontece realmente. E nisso a arte cumpre papel crucial. Segundo o filósofo já falecido Richard Rorty, meu mestre no pós-doutorado que fiz nos Estados Unidos e dono da citação na epígrafe de Elite da Tropa 2, nós  precisamos hoje não mais de tratados filosóficos, como no século XVIII, para demonstrar a superioridade da paz em relação à guerra. Nós precisamos de jornalismo, reportagem, etnografia, romance, literatura, cinema e documentário, precisamos, em suma, das narrativas. Porque é preciso relatar experiências de tal modo que a empatia possa ser vivenciada. Isso é muito mais forte do ponto de vista da efetividade do que o puro esforço reflexivo racional. Se você der a alguém um tratado filosófico kantiano mostrando a superioridade da paz perpétua, você pode eventualmente persuadir dois ou três. Da persuasão à emoção, que conduz à prática, há intervalos e brechas e hesitações, e dificilmente você irá além do universo dos filósofos, das pessoas capazes de decodificar aquela linguagem particular. Mas se você apresentar uma narrativa tendo um indivíduo como referência – seja lá qual for o tema, um tsunami, a peste bubônica, a pena de morte –, a capacidade que o texto terá de chegar à prática do outro, passando pela sua persuasão e suas emoções, conduzindo-o a uma nova ética, uma nova ação, serão muito maiores, as chances serão muito maiores de você ser muito mais efetivo.

Se você conta uma história de vida individual, gerando condições, pela narrativa, de trazer o leitor para as emoções vivenciadas pelo locutor, pelo narrador, pelo personagem, aí você abre uma outra ponte existencial, psicológica, simbólica extraordinariamente mais forte. Eu acredito nisso. Não falo isso para subestimar o trabalho acadêmico, que é insubstituível, evidentemente, mas para justificar a necessidade de uma abordagem que amplie, que crie, que trabalhe com outras linguagens e perspectivas. 

Nov 19

Uma menina vestida com a camisola fina a imprimir na alma o “disco argêntio do plenilúnio observado da janela no oitão branco, batido do luar, da velha casa da fazenda”. A imagem não é inventada por outro. Primeira mulher a ser eleita para a Academia Brasileira de Letras, foi com essas palavras que Rachel de Queiroz descreveu sua primeira “intoxicação poética”, no discurso de posse da cadeira número cinco em 1977. Ainda em Quixadá (CE), onde passou a maior parte da juventude, a adolescente se afogava nos versos parnasianos do maranhense Raimundo Correia (um dos fundadores da ABL). 

Nascida em 17 de novembro de 1910 numa família bastante apegada à leitura, sabemos agora, à beira do centenário de seu nascimento, que a Rachel de Queiroz imortalizada pela prosa dos romances e crônicas, na verdade começou sua produção literária em verso. Guardião de seu acervo, com mais de 5 mil itens, o Instituto Moreira Salles prepara a publicação de dez poemas inéditos da escritora, produzidos em meados de 1928, ainda antes da estréia de O quinze (1930), e agora reunidos no volume Mandacaru.

Já emancipada dos primeiros sonhos de menina, a segunda paixão poética da jovem Rachel, ela mesmo declarava, foi Manuel Bandeira, o que dá uma pista do que encontramos em Mandacaru. Os poemas não são avulsos, foram concebidos em conjunto, e “Rachel escreveu o prefácio endereçado aos modernistas do Sudeste”, explica Elvia Bezerra, responsável pelo análise dos versos. Na apresentação, a escritora cearense anunciava seu prodígio esforço literário como um “balbucio do Nordeste” em contribuição, mesmo que tardiamente, ao projeto de Brasil dos modernistas. Isto é, nada de arrebatamentos juvenis ou anseios de moça. “Apesar do ambiente simbolista que permeava o Ceará da época, ela já estava em busca de seu estilo enxuto natural e delineava ali os temas que viria a desenvolver em O quinze, como a seca e o êxodo”, continua Bezerra. Segundo a pesquisadora, reside aí o valor documental que por si só justifica a publicação da obra, renegada por Rachel de Queiroz até o fim.

Mandacaru será lançado em 17 de novembro, na sede do Rio de Janeiro do IMS. O volume trará os fac-símiles dos poemas e também do primeiro texto publicado por Rachel de Queiroz na imprensa brasileira, no caso, no jornal O Ceará. No mesmo dia, às 16h, será exibido o filme O cangaceiro, de 1954, dirigido por Lima Barreto, com diálogos de Rachel de Queiroz; às 19h, a ensaísta e professora Heloisa Buarque de Hollanda realizará uma conferência sobre a obra da autora; às 20h, será aberta a exposição Rachel de Queiroz centenária.

Nov 15
Uma menina vestida com a camisola fina a imprimir na alma o “disco argêntio do plenilúnio observado da janela no oitão branco, batido do luar, da velha casa da fazenda”. A imagem não é inventada por outro. Primeira mulher a ser eleita para a Academia Brasileira de Letras, foi com essas palavras que Rachel de Queiroz descreveu sua primeira “intoxicação poética”, no discurso de posse da cadeira número cinco em 1977. Ainda em Quixadá (CE), onde passou a maior parte da juventude, a adolescente se afogava nos versos parnasianos do maranhense Raimundo Correia (um dos fundadores da ABL). 
Nascida em 17 de novembro de 1910 numa família bastante apegada à leitura, sabemos agora, à beira do centenário de seu nascimento, que a Rachel de Queiroz imortalizada pela prosa dos romances e crônicas, na verdade começou sua produção literária em verso. Guardião de seu acervo, com mais de 5 mil itens, o Instituto Moreira Salles prepara a publicação de dez poemas inéditos da escritora, produzidos em meados de 1928, ainda antes da estréia de O quinze (1930), e agora reunidos no volume Mandacaru.
Já emancipada dos primeiros sonhos de menina, a segunda paixão poética da jovem Rachel, ela mesmo declarava, foi Manuel Bandeira, o que dá uma pista do que encontramos em Mandacaru. Os poemas não são avulsos, foram concebidos em conjunto, e “Rachel escreveu o prefácio endereçado aos modernistas do Sudeste”, explica Elvia Bezerra, responsável pelo análise dos versos. Na apresentação, a escritora cearense anunciava seu prodígio esforço literário como um “balbucio do Nordeste” em contribuição, mesmo que tardiamente, ao projeto de Brasil dos modernistas. Isto é, nada de arrebatamentos juvenis ou anseios de moça. “Apesar do ambiente simbolista que permeava o Ceará da época, ela já estava em busca de seu estilo enxuto natural e delineava ali os temas que viria a desenvolver em O quinze, como a seca e o êxodo”, continua Bezerra. Segundo a pesquisadora, reside aí o valor documental que por si só justifica a publicação da obra, renegada por Rachel de Queiroz até o fim.
Mandacaru será lançado em 17 de novembro, na sede do Rio de Janeiro do IMS. O volume trará os fac-símiles dos poemas e também do primeiro texto publicado por Rachel de Queiroz na imprensa brasileira, no caso, no jornal O Ceará. No mesmo dia, às 16h, será exibido o filme O cangaceiro, de 1954, dirigido por Lima Barreto, com diálogos de Rachel de Queiroz; às 19h, a ensaísta e professora Heloisa Buarque de Hollanda realizará uma conferência sobre a obra da autora; às 20h, será aberta a exposição Rachel de Queiroz centenária.

Peter Burke

Apesar do alerta nas escolas desde cedo, corriqueiramente esquecemos que proveito se pode tirar do conhecimento da História. Em tempos de memória caduca e anacrônica, o historiador Peter Burke é voz ativa em nos chamar a atenção. “É freqüente encontrar em seus textos uma ponte entre nosso tumultuado presente e os modos e costumes do passado”, escreveu o sociólogo brasileiro José de Souza Martins na orelha de O historiador como colunista (Civilização Brasileira, 2009), último livro inédito de Burke a ser lançado no Brasil, composto pelos artigos quinzenais que o historiador publica no jornal Folha de S. Paulo há 12 anos.   

Entre 1993 e 1994, Martins foi colega de Burke na University of Cambridge, onde o historiador inglês é professor emérito de história cultural. Peter Burke é hoje referência viva da Nova História, terceira fase da iconoclasta Escola de Annales. Sua linha de estudo privilegia a vida cotidiana e o percurso das ideias, as chamadas mentalidades, em detrimento à mera enumeração de acontecimentos político-militares. Credita-se a essa escola historiográfica, e a suas sumidades, como Fernand Braudel e Jacques Le Goff, o valor que hoje se reconhece nos objetos, na iconografia, no audiovisual e no relato oral como documentos tão importantes e reveladores do passado quanto os registros escritos.

Casado com a brasileira Maria Lucia Pallares-Burke, também historiadora, Peter Burke possui um relação próxima com o Brasil desde 1986, quando foi convidado a dar aulas na Universidade de São Paulo. Prolífico escritor, é autor de 28 livros traduzidos em cerca de 30 línguas – alguns já bibliografia básica em cursos de graduação em História no país, como Uma história social da mídia (Jorga Zahar, 1994) e Cultura popular na idade moderna, recentemente republicado em edição de bolso pela Companhia das Letras. Ele esteve na última Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), entre os dias 4 e 8 de agosto desse ano.

Junto com a esposa, Burke é responsável por divulgar a obra de Gilberto Freyre, homenageado da Flip desse ano, em meio ao mundo anglófono. Mas sua participação na Flip teve outra natureza. Ele integrou, ao lado de Robert Darnton, historiador do livro e diretor da biblioteca da Universidade de Harvard, a mesa sobre o assunto que mais agita o mercado editorial: o destino do livro na era digital. “As pessoas que ainda querem tocar o papel e cheirar o livro, e daí em diante, terão que estar preparadas para pagar mais. Será um tipo de sistema de dois níveis para os livros eu acho”, diz Burke na entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo que você confere abaixo.

No final de Fabricação do rei (Jorge Zahar, 2009. 2. ed.), você fala sobre quando os agentes publicitários começaram a desenvolver a imagem dos politícos, como Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Nos dias de hoje, na era digital, com a internet, e até no contexto brasileiro, com a Dilma pegando carona na imagem de Lula, como você vê esse processo de fabricação de políticos e líderes?

Peter Burke. Não tenho certeza se isso está mudando com a digitalização. Eu acho que a partir da era da câmera de televisão os políticos já estão em cena quase o tempo todo. Até quando eles pensam que estão fora do palco, estão encenando, porque tem havido esses famosos incidentes nos últimos dez anos em que gravadores estão ligados e [George W.] Bush, ou algum outro, pensa que estão desligados e começam a falar o que realmente pensam e é tudo captado. Bem, com e-mails é o mesmo problema. Você escreve e-mails achando que são confidenciais e no dia seguinte os vê publicados num jornal.

Já por muitos anos os políticos tiveram que conviver com essa ideia de que suas vidas privadas são públicas. Talvez as técnicas modernas estejam tornando ainda mais fácil invadir a vida privada do que antes, mas há uma longa tradição em invadir a privacidade. 

O que me interessou no caso de Luiz XIV foi que algumas dessas coisas já existiam no lado da propaganda. Já havia um comitê oficialmente estabelecido para cuidar da imagem do rei nas diferentes mídias daquele tempo, como tapeçarias, moedas e medalhas, gravuras. Enfim, eles olhavam para isso tudo e decidiam, isso vai dar ao rei uma boa imagem ou não? Devemos permitir que isso aconteça ou não? Bom, por outro lado, há todo um underground de imagens do rei, das quais o rei não se importava, que ele não podia impedir, as quais circulavam privadamente. Então, tudo isso já estava em cena no século XVII. 

Nessa época, essa fabricação da imagem se deu mais através da arte, certo? Através de esculturas, quadros etc.?

Burke. Ah, sim. Do lado oficial havia essas estátuas de Luis XIV erguidas em todas as cidades principais do reino. Em contrapartida, às vezes, à noite, pessoas escreviam grafites desrespeitosos nos pedestais e então, em Paris, foram colocadas barreiras ao redor [das estátuas]. Isso mostra que havia tanta gente querendo escrever coisas desrespeitosas que eles tiveram de cercar as estátuas.

Falando um pouco em relação ao conhecimento e às crianças que vão à escola hoje. Às vezes era necessário decorar muitas informações, mas agora se tem ferramentas como o Google, no qual se pode simplesmente buscar esses dados instantaneamente. Como você vê a educação combinando esses processos para as novas gerações?

Burke. Bom, como a maioria das mudanças, há um lado positivo e um lado negativo disso. O lado positivo é o que você mencionou. Não é preciso mais fazer a criança saber a data de batalhas de cor. Se por alguma razão for realmente necessário saber a data de uma batalha, eles clicam na Wikipédia, ou algo assim, e acham instantaneamente.

Mas eu ficaria bem desapontado se o ato de aprender coisas de cor desaparecesse por completo. Particularmente, a poesia. E isso ficou bem claro na Flip, porque lá estava Edson Nery da Fonseca que sabia de cor um poema de Gilberto Freire e sem nenhum pedaço de papel ele o recitou com grande paixão. Eu ainda posso recitar poemas de memória, não porque fui feito para aprendê-los, mas os li com tanta frequência para mim mesmo que acabei decorando-os. É um grande prazer poder recitar um poema e não precisar olhar em um livro ou na internet ou algo assim. 

Tenho um pouco de medo pelas crianças de hoje, que nasceram em um mundo onde a internet já estava lá. Será que elas vão perder essa arte? Não há razão para que elas tenham que perder. Nós podemos dispor as escolas para que aprendam esse tipo de coisa. E, de fato, há mais tempo para isso, porque elas já não estão aprendendo mais as datas. Mas elas ainda tem que decorar a tabuada. [risos] Eu não acho que todas as vezes que você queira saber quanto é 14 vezes sete se tenha que ir ao Google para descobrir. Ainda há um papel para o bom aprendizado oral à moda antiga, mesmo que um espaço menor, agora, graças a esses novos meios de comunicação. 

Sobre o copyright. Nós vimos uma grande mudança na indústria da música e a indústria do livro tem muito a aprender com o exemplo. Agora temos os e-books ganhando espaço. Diante das mudanças na indústria cultural e baseado na experiência da música, em que as grandes gravadoras perdem espaço e as pessoas estão parando de comprar CDs e DVDs, você acha que os livros também deixarão de ser vendidos? As pessoas poderão não comprar mais livros? 

Burke. Isso é difícil de dizer. É mais fácil perceber o que tem acontecido com os jornais, pois está ocorrendo mais rápido e porque eu acho que ler um jornal on-line é uma atividade bem mais fácil do que ler um livro on-line. Porque nós já aprendemos a ler jornais pulando rapidamente de uma manchete para a outra, quer dizer, é o que eu chamaria escanear em vez de ler. E então isso quer dizer que as vendas de jornais em papel caem e, ainda pior, os anunciantes não se interessam mais em anunciar num jornal que não vende cópias o bastante. Mas algo interessante aconteceu na Inglaterra quando esse russo bilionário, [Alexander] Lebedev, comprou o jornal Evening Standard, que perdia dinheiro, e decidiu torná-lo gratuito. Assim que isso aconteceu, o número de leitores, é claro, subiu, o que significa que os anunciantes voltaram. Então agora ele lucra. Quer dizer, dar de graça traz lucro e vender traz prejuízo [risos]. 

Eu não acho que isso acontecerá, na mesma escala, com o livro. Suponho que haverá dois preços para os livros agora. O mais barato on-line, mas as pessoas que ainda querem tocar o papel e cheirar o livro, e daí em diante, terão que estar preparadas para pagar mais. Será um tipo de sistema de dois níveis para os livros eu acho.   

E o quanto mais longo o livro, o menos confortável é, claro, lê-lo no Kindle ou algo assim. Eu estava falando ontem a noite: como você vai ler Guerra e paz [de Tolstói]? É não só um esforço para os olhos, é um esforço para os braços e eu não acho que a nova tecnologia é boa para livros longos. Assim eu temo que talvez no futuro as pessoas possam não escrever mais livros longos, que elas decidam escrever somente livros curtos, ou que tenham a diminuição do livro. Ok, eu não tenho nada contra o livro curto. Eu escrevo livros curtos, leio livros curtos. Mas eu ficaria muito triste se livros antigos fossem curtos e se as crianças de hoje fossem privadas de alguns livros longos do passado que são maravilhosos, como Tolstói. Mais uma vez, e isso é um lugar comum em história, há um lado bom e um lado ruim eu acho que em qualquer tipo de mudança que se possa imaginar. O que é bom para uns, é ruim para outros. O que é bom de alguma maneira, é ruim de outra. Nós temos apenas que conviver com isso. 

Há algum livro que você tenha escrito e possa dizer que é seu preferido, ou isso é muito difícil?

Burke. Para mim é muito difícil. O que apanho no mundo externo é que as pessoas acham que meu melhor livro é Cultura popular na idade moderna (Companhia das Letras), que em alguns aspectos é bom, mas o escrevi quando tinha 39 anos e eu gostaria de pensar que melhorei desde então, mas ninguém concorda, talvez porque aquele foi o livro certo na hora certa sobre o assunto certo. Eu gosto de pensar agora que eu tenho explorado alguns tópicos que o público, até outros historiadores, ainda não apanharam. Eu estou esperando que o que escrevi sobre a história da linguagem será um tema de maior interesse em dez ou 15 anos do que é agora. Eu gostaria de pensar que isso é porque eu sou um pioneiro. Mas é claro que as pessoas podem ter opiniões bem erradas sobre si mesmas. Estou estudando Gilberto Freyre, alguém com todos esses talentos, mas nem sempre ele avaliou bem qual o seu pior ou melhor trabalho. Então, se ele não pode fazê-lo, eu certamente não posso.

Qual o tema que hoje em dia o fascina mais? O que tem te motivado?  

Burke. O que estou escrevendo agora, e portanto tem puxado todo o resto para segundo plano, é o segundo volume da História do Conhecimento. Escrevi o primeiro que vai de Gutemberg a Diderot e agora eu achei um bom título para o período entre a Enciclopédia e a Wikipédia. Talvez eu não tivesse ousado fazer isso há dez anos. De qualquer forma, quando estava ensinando em tempo integral, era suposto ensinar os séculos XVI e XVII. Mas agora que me aposentei, não tenho período, posso escrever sobre absolutamente o que quiser. Eu comecei a pensar: como chegamos até onde estamos hoje desde os tempos de Diderot? Bem, a única maneira de descobrir é fazer a pesquisa, porque não há livro que conta essa história. Às vezes você quer ler um livro e esse livro não existe, então você acaba escrevendo o livro que gostaria de ler e esperava que alguém tivesse escrito. É bem excitante. Quer dizer, é perigoso para mim, porque eu nunca trabalhei nos séculos XIX e XX dessa maneira. Quando você vem trabalhando 14 anos em um período, começa a temer ficar banal e acabar repetindo a si mesmo. Bem, se eu não tiver nenhuma nova ideia, pelo menos vou escrever sobre um século totalmente novo e esperar que isso me renove.

Oct 25
Peter Burke
Apesar do alerta nas escolas desde cedo, corriqueiramente esquecemos que proveito se pode tirar do conhecimento da História. Em tempos de memória caduca e anacrônica, o historiador Peter Burke é voz ativa em nos chamar a atenção. “É freqüente encontrar em seus textos uma ponte entre nosso tumultuado presente e os modos e costumes do passado”, escreveu o sociólogo brasileiro José de Souza Martins na orelha de O historiador como colunista (Civilização Brasileira, 2009), último livro inédito de Burke a ser lançado no Brasil, composto pelos artigos quinzenais que o historiador publica no jornal Folha de S. Paulo há 12 anos.   
Entre 1993 e 1994, Martins foi colega de Burke na University of Cambridge, onde o historiador inglês é professor emérito de história cultural. Peter Burke é hoje referência viva da Nova História, terceira fase da iconoclasta Escola de Annales. Sua linha de estudo privilegia a vida cotidiana e o percurso das ideias, as chamadas mentalidades, em detrimento à mera enumeração de acontecimentos político-militares. Credita-se a essa escola historiográfica, e a suas sumidades, como Fernand Braudel e Jacques Le Goff, o valor que hoje se reconhece nos objetos, na iconografia, no audiovisual e no relato oral como documentos tão importantes e reveladores do passado quanto os registros escritos.
Casado com a brasileira Maria Lucia Pallares-Burke, também historiadora, Peter Burke possui um relação próxima com o Brasil desde 1986, quando foi convidado a dar aulas na Universidade de São Paulo. Prolífico escritor, é autor de 28 livros traduzidos em cerca de 30 línguas – alguns já bibliografia básica em cursos de graduação em História no país, como Uma história social da mídia (Jorga Zahar, 1994) e Cultura popular na idade moderna, recentemente republicado em edição de bolso pela Companhia das Letras. Ele esteve na última Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), entre os dias 4 e 8 de agosto desse ano.
Junto com a esposa, Burke é responsável por divulgar a obra de Gilberto Freyre, homenageado da Flip desse ano, em meio ao mundo anglófono. Mas sua participação na Flip teve outra natureza. Ele integrou, ao lado de Robert Darnton, historiador do livro e diretor da biblioteca da Universidade de Harvard, a mesa sobre o assunto que mais agita o mercado editorial: o destino do livro na era digital. “As pessoas que ainda querem tocar o papel e cheirar o livro, e daí em diante, terão que estar preparadas para pagar mais. Será um tipo de sistema de dois níveis para os livros eu acho”, diz Burke na entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo que você confere abaixo.
No final de Fabricação do rei (Jorge Zahar, 2009. 2. ed.), você fala sobre quando os agentes publicitários começaram a desenvolver a imagem dos politícos, como Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Nos dias de hoje, na era digital, com a internet, e até no contexto brasileiro, com a Dilma pegando carona na imagem de Lula, como você vê esse processo de fabricação de políticos e líderes?
Peter Burke. Não tenho certeza se isso está mudando com a digitalização. Eu acho que a partir da era da câmera de televisão os políticos já estão em cena quase o tempo todo. Até quando eles pensam que estão fora do palco, estão encenando, porque tem havido esses famosos incidentes nos últimos dez anos em que gravadores estão ligados e [George W.] Bush, ou algum outro, pensa que estão desligados e começam a falar o que realmente pensam e é tudo captado. Bem, com e-mails é o mesmo problema. Você escreve e-mails achando que são confidenciais e no dia seguinte os vê publicados num jornal.
Já por muitos anos os políticos tiveram que conviver com essa ideia de que suas vidas privadas são públicas. Talvez as técnicas modernas estejam tornando ainda mais fácil invadir a vida privada do que antes, mas há uma longa tradição em invadir a privacidade. 
O que me interessou no caso de Luiz XIV foi que algumas dessas coisas já existiam no lado da propaganda. Já havia um comitê oficialmente estabelecido para cuidar da imagem do rei nas diferentes mídias daquele tempo, como tapeçarias, moedas e medalhas, gravuras. Enfim, eles olhavam para isso tudo e decidiam, isso vai dar ao rei uma boa imagem ou não? Devemos permitir que isso aconteça ou não? Bom, por outro lado, há todo um underground de imagens do rei, das quais o rei não se importava, que ele não podia impedir, as quais circulavam privadamente. Então, tudo isso já estava em cena no século XVII. 
Nessa época, essa fabricação da imagem se deu mais através da arte, certo? Através de esculturas, quadros etc.?
Burke. Ah, sim. Do lado oficial havia essas estátuas de Luis XIV erguidas em todas as cidades principais do reino. Em contrapartida, às vezes, à noite, pessoas escreviam grafites desrespeitosos nos pedestais e então, em Paris, foram colocadas barreiras ao redor [das estátuas]. Isso mostra que havia tanta gente querendo escrever coisas desrespeitosas que eles tiveram de cercar as estátuas.
Falando um pouco em relação ao conhecimento e às crianças que vão à escola hoje. Às vezes era necessário decorar muitas informações, mas agora se tem ferramentas como o Google, no qual se pode simplesmente buscar esses dados instantaneamente. Como você vê a educação combinando esses processos para as novas gerações?
Burke. Bom, como a maioria das mudanças, há um lado positivo e um lado negativo disso. O lado positivo é o que você mencionou. Não é preciso mais fazer a criança saber a data de batalhas de cor. Se por alguma razão for realmente necessário saber a data de uma batalha, eles clicam na Wikipédia, ou algo assim, e acham instantaneamente.
Mas eu ficaria bem desapontado se o ato de aprender coisas de cor desaparecesse por completo. Particularmente, a poesia. E isso ficou bem claro na Flip, porque lá estava Edson Nery da Fonseca que sabia de cor um poema de Gilberto Freire e sem nenhum pedaço de papel ele o recitou com grande paixão. Eu ainda posso recitar poemas de memória, não porque fui feito para aprendê-los, mas os li com tanta frequência para mim mesmo que acabei decorando-os. É um grande prazer poder recitar um poema e não precisar olhar em um livro ou na internet ou algo assim. 
Tenho um pouco de medo pelas crianças de hoje, que nasceram em um mundo onde a internet já estava lá. Será que elas vão perder essa arte? Não há razão para que elas tenham que perder. Nós podemos dispor as escolas para que aprendam esse tipo de coisa. E, de fato, há mais tempo para isso, porque elas já não estão aprendendo mais as datas. Mas elas ainda tem que decorar a tabuada. [risos] Eu não acho que todas as vezes que você queira saber quanto é 14 vezes sete se tenha que ir ao Google para descobrir. Ainda há um papel para o bom aprendizado oral à moda antiga, mesmo que um espaço menor, agora, graças a esses novos meios de comunicação. 
Sobre o copyright. Nós vimos uma grande mudança na indústria da música e a indústria do livro tem muito a aprender com o exemplo. Agora temos os e-books ganhando espaço. Diante das mudanças na indústria cultural e baseado na experiência da música, em que as grandes gravadoras perdem espaço e as pessoas estão parando de comprar CDs e DVDs, você acha que os livros também deixarão de ser vendidos? As pessoas poderão não comprar mais livros? 
Burke. Isso é difícil de dizer. É mais fácil perceber o que tem acontecido com os jornais, pois está ocorrendo mais rápido e porque eu acho que ler um jornal on-line é uma atividade bem mais fácil do que ler um livro on-line. Porque nós já aprendemos a ler jornais pulando rapidamente de uma manchete para a outra, quer dizer, é o que eu chamaria escanear em vez de ler. E então isso quer dizer que as vendas de jornais em papel caem e, ainda pior, os anunciantes não se interessam mais em anunciar num jornal que não vende cópias o bastante. Mas algo interessante aconteceu na Inglaterra quando esse russo bilionário, [Alexander] Lebedev, comprou o jornal Evening Standard, que perdia dinheiro, e decidiu torná-lo gratuito. Assim que isso aconteceu, o número de leitores, é claro, subiu, o que significa que os anunciantes voltaram. Então agora ele lucra. Quer dizer, dar de graça traz lucro e vender traz prejuízo [risos]. 
Eu não acho que isso acontecerá, na mesma escala, com o livro. Suponho que haverá dois preços para os livros agora. O mais barato on-line, mas as pessoas que ainda querem tocar o papel e cheirar o livro, e daí em diante, terão que estar preparadas para pagar mais. Será um tipo de sistema de dois níveis para os livros eu acho.   
E o quanto mais longo o livro, o menos confortável é, claro, lê-lo no Kindle ou algo assim. Eu estava falando ontem a noite: como você vai ler Guerra e paz [de Tolstói]? É não só um esforço para os olhos, é um esforço para os braços e eu não acho que a nova tecnologia é boa para livros longos. Assim eu temo que talvez no futuro as pessoas possam não escrever mais livros longos, que elas decidam escrever somente livros curtos, ou que tenham a diminuição do livro. Ok, eu não tenho nada contra o livro curto. Eu escrevo livros curtos, leio livros curtos. Mas eu ficaria muito triste se livros antigos fossem curtos e se as crianças de hoje fossem privadas de alguns livros longos do passado que são maravilhosos, como Tolstói. Mais uma vez, e isso é um lugar comum em história, há um lado bom e um lado ruim eu acho que em qualquer tipo de mudança que se possa imaginar. O que é bom para uns, é ruim para outros. O que é bom de alguma maneira, é ruim de outra. Nós temos apenas que conviver com isso. 
Há algum livro que você tenha escrito e possa dizer que é seu preferido, ou isso é muito difícil?
Burke. Para mim é muito difícil. O que apanho no mundo externo é que as pessoas acham que meu melhor livro é Cultura popular na idade moderna (Companhia das Letras), que em alguns aspectos é bom, mas o escrevi quando tinha 39 anos e eu gostaria de pensar que melhorei desde então, mas ninguém concorda, talvez porque aquele foi o livro certo na hora certa sobre o assunto certo. Eu gosto de pensar agora que eu tenho explorado alguns tópicos que o público, até outros historiadores, ainda não apanharam. Eu estou esperando que o que escrevi sobre a história da linguagem será um tema de maior interesse em dez ou 15 anos do que é agora. Eu gostaria de pensar que isso é porque eu sou um pioneiro. Mas é claro que as pessoas podem ter opiniões bem erradas sobre si mesmas. Estou estudando Gilberto Freyre, alguém com todos esses talentos, mas nem sempre ele avaliou bem qual o seu pior ou melhor trabalho. Então, se ele não pode fazê-lo, eu certamente não posso.
Qual o tema que hoje em dia o fascina mais? O que tem te motivado?  
Burke. O que estou escrevendo agora, e portanto tem puxado todo o resto para segundo plano, é o segundo volume da História do Conhecimento. Escrevi o primeiro que vai de Gutemberg a Diderot e agora eu achei um bom título para o período entre a Enciclopédia e a Wikipédia. Talvez eu não tivesse ousado fazer isso há dez anos. De qualquer forma, quando estava ensinando em tempo integral, era suposto ensinar os séculos XVI e XVII. Mas agora que me aposentei, não tenho período, posso escrever sobre absolutamente o que quiser. Eu comecei a pensar: como chegamos até onde estamos hoje desde os tempos de Diderot? Bem, a única maneira de descobrir é fazer a pesquisa, porque não há livro que conta essa história. Às vezes você quer ler um livro e esse livro não existe, então você acaba escrevendo o livro que gostaria de ler e esperava que alguém tivesse escrito. É bem excitante. Quer dizer, é perigoso para mim, porque eu nunca trabalhei nos séculos XIX e XX dessa maneira. Quando você vem trabalhando 14 anos em um período, começa a temer ficar banal e acabar repetindo a si mesmo. Bem, se eu não tiver nenhuma nova ideia, pelo menos vou escrever sobre um século totalmente novo e esperar que isso me renove.

Este filme é um deboche. Um deboche interessante da arte e do audiovisual com relances de streetart. O deboche começa pelo trailer. O protagonista do filme não é a arte de rua.

Cru como só Scola sabe ser. Sobre o desapego da arte. Ornela Mutti mi amore.

Quem quer ser primeiro?! Belíssimas demonstrações de perseverança humana (que fazem o filme valer) cooptadas pela narrativa do sistema.

Felipe Pontes

Posted on Wednesday February 2nd 2011 at 12:00am. Its tags are listed below.

"Me cansei do cansaço / de não buscar o meu mais sincero / porque dói demais”.

Estes são os primeiros versos de “Religar”, a canção que dá nome ao disco de Leo Cavalcanti, e anunciam a entrega com que o artista apresenta o seu trabalho de estreia.



As 14 canções reunidas neste álbum revelam um mergulho sincero nos seus próprios questionamentos, a busca por autoconhecimento e a descoberta de um mundo que não pode ser racionalizado. A estética aqui é a do afeto – é hora de “tirar da mente e por no coração”. Leo se apresenta com a coragem de um sonâmbulo que simplesmente vai, convicto de que o caminho mais rico é rumo ao mistério.



“Tudo o que as letras dizem, parece que eu vivi o contrário. “Medo de olhar para si”, a canção que fecha o disco, fala disso. Eu tive muito medo de olhar para mim”, conta Leo, em um passeio de carro pelo Rio de Janeiro, rumo ao Mirante do Rato Molhado, em Santa Teresa, cenário onde cantou algumas canções de seu novo disco com exclusividade para o SaraivaConteúdo.



Lançado no finalzinho de 2010, o disco traz o resultado do amadurecimento de canções surgidas paulatinamente ao longo dos últimos cinco anos, maturadas de forma solitária. O processo de concepção musical teve início no estúdio do pai, o compositor Péricles Cavalcanti.



“A solidão, a coisa do estúdio caseiro, de começar a gravar sozinho, a pensar no arranjo, e ter essa gana mesmo de participar de todos os processos do disco, acabou gerando mesmo uma coisa individual. Sinto que o disco é justamente essa passagem, do interno pro externo, do individual pro coletivo”, afirma Leo.



Dar ouvidos às canções depois de prontas, encadeadas em um disco, foi mais uma etapa deste ciclo. “Acabei reaprendendo com as músicas. Isso é muito legal, ver que a canção tem uma vida própria, ela não me pertence, sabe? Ela brota de mim, mas eu aprendo com ela”, avalia o compositor.



Após o período sozinho, foram mais nove meses em estúdio junto com Décio 7 e Cris Scabello. Este tempo foi necessário para esculpir os múltiplos níveis de sonoridade, compostos por até seis camadas de vozes que se unem a instrumentos tão diversos quanto guitarras, violinos, castanholas, trompetes, bandolins, violoncelos, alaúdes e beatbox. 



O resultado veio com personalidade, capaz de destacá-lo na efervescente cena paulistana. A revista Manuscrita, por exemplo, numa metódica e criteriosa seleção dos cem melhores álbuns nacionais de 2010, alçou o disco de Leo Cavalcanti ao topo da lista, acima de outras novidades badaladas como Karina Buhr, Marcelo Jeneci e Tulipa Ruiz. Aliás, os dois últimos fazem participações no disco de Leo. Tulipa canta lindamente em “Sem (des)esperar” e Jeneci toca piano na faixa “Acaso”. 



Sobre o cenário musical atual e seus colegas de geração, Leo enxerga passos originais em muito do que está chegando ao público: “Está havendo um momento em que não se quer reproduzir o que foi feito, e isso está bem presente nas intenções mesmo. Cada um tem o seu lance e é isso que faz ficar genuíno e cool de verdade, muito de verdade. Eu vejo muita sinceridade nesse momento e me parece que esse é o material principal para fazer música”, finaliza. 



Quanto ao que vem pela frente em sua carreira, melhor não fazer muitos prognósticos. O autor dos versos “Mas agora eu sei / que o acaso é meu rei” segue sincero e se entrega ao grande mistério.



*com Marcio Debellian / foto de Tomás Rangel

"Me cansei do cansaço / de não buscar o meu mais sincero / porque dói demais”.

Estes são os primeiros versos de “Religar”, a canção que dá nome ao disco de Leo Cavalcanti, e anunciam a entrega com que o artista apresenta o seu trabalho de estreia.

As 14 canções reunidas neste álbum revelam um mergulho sincero nos seus próprios questionamentos, a busca por autoconhecimento e a descoberta de um mundo que não pode ser racionalizado. A estética aqui é a do afeto – é hora de “tirar da mente e por no coração”. Leo se apresenta com a coragem de um sonâmbulo que simplesmente vai, convicto de que o caminho mais rico é rumo ao mistério.

“Tudo o que as letras dizem, parece que eu vivi o contrário. “Medo de olhar para si”, a canção que fecha o disco, fala disso. Eu tive muito medo de olhar para mim”, conta Leo, em um passeio de carro pelo Rio de Janeiro, rumo ao Mirante do Rato Molhado, em Santa Teresa, cenário onde cantou algumas canções de seu novo disco com exclusividade para o SaraivaConteúdo.

Lançado no finalzinho de 2010, o disco traz o resultado do amadurecimento de canções surgidas paulatinamente ao longo dos últimos cinco anos, maturadas de forma solitária. O processo de concepção musical teve início no estúdio do pai, o compositor Péricles Cavalcanti.

“A solidão, a coisa do estúdio caseiro, de começar a gravar sozinho, a pensar no arranjo, e ter essa gana mesmo de participar de todos os processos do disco, acabou gerando mesmo uma coisa individual. Sinto que o disco é justamente essa passagem, do interno pro externo, do individual pro coletivo”, afirma Leo.

Dar ouvidos às canções depois de prontas, encadeadas em um disco, foi mais uma etapa deste ciclo. “Acabei reaprendendo com as músicas. Isso é muito legal, ver que a canção tem uma vida própria, ela não me pertence, sabe? Ela brota de mim, mas eu aprendo com ela”, avalia o compositor.

Após o período sozinho, foram mais nove meses em estúdio junto com Décio 7 e Cris Scabello. Este tempo foi necessário para esculpir os múltiplos níveis de sonoridade, compostos por até seis camadas de vozes que se unem a instrumentos tão diversos quanto guitarras, violinos, castanholas, trompetes, bandolins, violoncelos, alaúdes e beatbox. 

O resultado veio com personalidade, capaz de destacá-lo na efervescente cena paulistana. A revista Manuscrita, por exemplo, numa metódica e criteriosa seleção dos cem melhores álbuns nacionais de 2010, alçou o disco de Leo Cavalcanti ao topo da lista, acima de outras novidades badaladas como Karina Buhr, Marcelo Jeneci e Tulipa Ruiz. Aliás, os dois últimos fazem participações no disco de Leo. Tulipa canta lindamente em “Sem (des)esperar” e Jeneci toca piano na faixa “Acaso”. 

Sobre o cenário musical atual e seus colegas de geração, Leo enxerga passos originais em muito do que está chegando ao público: “Está havendo um momento em que não se quer reproduzir o que foi feito, e isso está bem presente nas intenções mesmo. Cada um tem o seu lance e é isso que faz ficar genuíno e cool de verdade, muito de verdade. Eu vejo muita sinceridade nesse momento e me parece que esse é o material principal para fazer música”, finaliza. 

Quanto ao que vem pela frente em sua carreira, melhor não fazer muitos prognósticos. O autor dos versos “Mas agora eu sei / que o acaso é meu rei” segue sincero e se entrega ao grande mistério.

*com Marcio Debellian / foto de Tomás Rangel

Jorge Mautner, 70

Posted on Tuesday January 18th 2011 at 12:00am. Its tags are listed below.

Jorge Mautner, 70

Motor propulsor do foguete, chuva que germina, ideólogo, avant la lettre, profeta. Nos depoimentos dos amigos de Jorge Mautner que estiveram no Circo Voador para homenageá-lo pelo seu aniversário de 70 anos, no último dia 17 de janeiro, é que comprovamos sua importância como agitador de mentes criativas. Não basta ter talento se não há um propósito e na peculiar coerência de seu discurso, repleto de citações a José Bonifácio, Walt Whitman e Benedito Valadares, Mautner serve de norte magnético, canalizando para objetivos civilizatórios a energia criativa dos tropicalistas, dos poetas marginais e das companhias de teatro da periferia.

“O Jorge tem sido fundamental, porque ele é um processador entusiasmado dessas coisas, dessas interpretações, leituras profundas sobre o significado da política, da arte, da filosofia, da literatura, da ciência”, diz Gilberto Gil. “E eu fiquei embevecido com essa inteligência”, avisa Jards Macalé. Uma força que alçou os amigos a um sucesso capaz de atrair multidões, gente que trabalha no dia seguinte e lotou o Circo Voador em plena segunda-feira. “A gente estimula isso, nosso objetivo é estimular estes novos degenerados, dessa geração de vocês”, completa Macalé.

Filho do Holocausto – esse o título de um de seus livros e também do documentário sobre sua vida, preparado pelo jornalista Pedro Bial e com previsão de lançamento para esse semestre –, Jorge Mautner nasceu no Rio de Janeiro em 17 de janeiro de 1941, no seio de uma família judia austríaca refugiada no Brasil. Aprendeu música com o padrasto violinista e já em 62, publicou Deus da Chuva e da Morte, o primeiro livro. De 1963 até o dia do golpe de 64, Mautner manteve uma coluna diária no jornal Última Hora, o que o levou ao exílio em Londres, onde conheceu Caetano, Gil e companhia. Lá produziu o filme Demiurgo, no qual já resume o que hoje é conhecida como Teoria do Kaos. No primeiro disco gravado, Para iluminar a cidade, de 1972, aparecia o sucesso Maracatu atômico, composta com a inseparável parceria de Nelson Jacobina. A partir daí vieram os discos Bomba de Estrelas (de 1981 relançado pela Warner em 1995), Pedra bruta (1992), Revirão,produzido por Berna e Kassin (1997), sem falar na poesia e prosa em constate produção que garantiram o culto à sua personalidade solar e a reverência dos colegas.

A princípio podem parecer confusas aos não iniciados, mas aqueles que recebem de boa vontade as palavras de Mautner não podem deixar de notar sua lucidez, seja para pausar e lembrar que em meio à festa o Rio de Janeiro se encontrava atingido por uma tragédia – que vitimou um dos parceiros dele e Nelson Jacobina, o pianista Mario Jansen -, seja para explicar o que é a amálgama brasileira ou o Kaos com K. 


O que significa esse dia, estes 70 anos para você? Acabamos de ver a passagem de som, teus amigos, a Orquestra Imperial, com quem já toca há bastante tempo…

Jorge Mautner. De um lado, é uma homenagem ao meu aniversário, né? Mas é a junção de vários estilos, várias épocas, idades, gerações, vários ritmos. Representa a amálgama que somos – eu sempre falo –, do José Bonifácio de Andrade, ele disse isso em 1823. E num momento em que o Brasil tem importância total para a sobrevivência da espécie. Aqui nós temos que civilizar o mundo para não ter ódio um dos outros, aqui árabes e judeus às vezes são sócios juntos. Mas não é só por isso, é pela extrema criatividade que esse Brasil é o mais original de todos, é um continente. 

Meu coração está pulando, estou até contendo a emoção, porque emoção demais você embaralha… [risos] E é uma coisa muito impressionante ter esses amigos reunidos, essa garotada. E o que me dá mais felicidade é ver o Brasil avançando na democracia, nos direitos humanos e a liderança das mulheres, nossa presidente Dilma e a ministra da Cultura, artista também, Ana de Hollanda. Aqui não tem partido, só não pode ser nazista, tem reunião de todo tipo de ideologia. E ocorre numa época triste, por causa das enchentes. Tenho que falar disso, perdemos um amigo, meu e do Nelson Jacobina, com quem fizemos um disco, Mario Jansen, que faleceu. E todo mundo tem uma pessoa amiga, e mesmo que não tenha, se identifica. Mas temos a obrigação de fazer essa festa, porque esse é o Brasil, [é preciso] dar a volta por cima. 

Uma coisa latente no depoimento dos seus amigos é a sua capacidade de irrigar, irradiar com suas ideias e pensamentos, que foi muito importante para eles lá no momento em que você se conheceram, no fim dos anos 1960, em Londres… 

Mautner. Aí a informação é interatividade, essa palavra já existia. Então um influencia o outro. Eu sou filho do Holocausto. Nasci aqui um mês depois que meus pais chegaram, a família por parte de pai e mãe toda vitimada. A minha felicidade é total e esse meu modo de ficar fazendo a cabeça é porque sou ideólogo, acho que a arte tem que transformar a sociedade, só que não é uma visão dogmática. É uma visão aberta e a liberdade do indivíduo, de expressão são sagradas. Tudo isso é história e ela é sempre uma surpresa. Já dizia Benedito Valadares, “na prática, a teoria é outra”. Então temos que se amoldar à prática. 

E acho que o Brasil está na frente, dando aulas ao mundo. E cito na música que fiz com Gilberto Gil, “Outros viram”, vários que prenunciaram este Brasil. Mas o principal, por ser o maior poeta ufanista dos Estados Unidos, Walt Whitman, depois de elogiar os Estados Unidos e sua democracia, disse: “No entanto, o vértice da suprema humanidade será o Brasil”. Ele já tinha sacado isso, ele e muitos outros, Stefan Zweig, Maiakovski, Kierkegaard. Muita gente, até os índios tupis guaranis, vieram aqui, 150 anos antes da chegada dos portugueses, à procura da terra sem males. Também eles. E nossos índios, nossos ancestrais são proto ou pré-civilização hindu. Proto ou pré de todo o taoísmo que vai surgir. E a famosa preguiça era já a visão que iria nascer do taoísmo, o wu wei, a ação da não ação. 

E onde entra o Kaos? 

Mautner. Olha, não é caos com “c”, mas Kaos com “k”. A realidade é o caos. O que a natureza? Laboratório de hecatombes, zoologia do triunfo do mais forte, uma visão social de repartir tudo, e isso é reinterpretado a todo instante. E o Kaos já é a tentativa de controle para que todo esse caos se dirija para o bem, para o engrandecimento humano, ainda mais hoje em dia, quando estamos no limiar do ser humano novo, sem doenças, através da ciência, da longevidade indefinida. Mas o mais importante é amor, por isso repito que São Paulo disse: “Mesmo quando não houver mais nem fé nem esperança, o amor continuará a resplandecer no Universo”.

>Mais sobre o dia da festa? Leia aqui.

Felipe Pontes

Posted on Friday January 7th 2011 at 11:42am. Its tags are listed below.

A crônica, como o futebol, não foi criada no Brasil, mas é aqui que ela se desenvolveu melhor. Isso quem diz é o jornalista e escritor mineiro Humberto Werneck, organizador, entre outras coisas, da criteriosa coletânea Boa Companhia – Crônicas (Companhia das Letras, 2005). Antonio Prata o cita e vai além com as analogias, comparando o gênero à modalidade futebol de salão, onde é preciso fazer dribles em um espaço curto e chutar reto no gol, quer dizer, ir direto ao ponto. Ele continua: “Os dois esportes se desenvolveram na várzea, o futebol na várzea dos rios e a crônica na várzea da literatura, que é nesse lugar meio obscuro entre o jornalismo e a literatura…”

Foto de Tomás Rangel

Típica conversa de meio intelectual, meio de esquerda, estilo de ser personificado em Antonio Prata. Um dia estudante de cinema, filosofia e ciências sociais – sem nunca concluir nenhum dos cursos -, há dois meses o jovem escritor e roteirista lançou mais uma coletânea de crônicas, dessa vez selecionadas entre as publicadas desde 2004 no jornal Estado de S. Paulo. Meio intelectual, meio de esquerda (Editora 34, 2010) veio sacramentar o que todo mundo já desconfiava. Eis alguém apto a assumir a responsabilidade por algo que desde o século XIX descontrai a imprensa brasileira: o exercício de achar surpresa em coisas aparentemente singelas e óbvias do dia a dia. 

Sejam sobre tomates, meias, a barriga do Ronaldo, os comentários sobre o clima, a assinatura de um escrivão de cartório, ou, simplesmente, a própria morte - a maior obviedade de todas -, os textos de Antonio Prata chegam a lembrar a mesma espécie de feeling que encontramos em alguns mestres nessa arte sutil, como Rubem Braga, Millôr Fernandes, Fernando Sabino, Luis Fernando Verissimo, Paulo Mendes Campos, Sergio Porto e… Mario Prata.

“Primeiro eu achava que meu pai era dono de uma fábrica de chocolates”, recorda Antonio, nascido em 1977, filho de Mario, esse sim completamente de esquerda, jovem escritor em época ideologicamente mais polarizada do que a atual. Ainda criança, Pratinha, como é chamado pelos amigos, ouvia os pais conversarem sobre uma certa Fábrica de Chocolates e ficava ressentido por Prata pai não lhe presentear com o cacau doce com a freqüência que julgava justa. Mal sabia ele que os adultos falavam de uma dentre as mais de uma dezena de peças escritas por Mario, logo uma cujo tema é a tortura. “Só mais tarde fui entender que ele era escritor. Via ele trabalhando, datilografando à máquina e tal”, conta Antonio. “Muita gente acha que a literatura é uma espécie de desvio. As pessoas perguntam ‘quando você decidiu ser escritor?’ quase como se eu tivesse que sair do armário, e na minha casa esse armário já estava aberto e todo mundo já estava dentro dele ali, ou fora dele, enfim”, arremata o assunto.

Foi aos dezenove anos que Antonio Prata encontrou numa livraria o escritor Fernando Bonassi – roterista de programas infantis cultuados da TV Cultura, como Castelo Rá-Tim-Bum e O Mundo da Lua, e autor de dezenas de livros – e disse que tinha uns textos prontos e coisa e tal. Bonassi estranhou logo o jovem ainda não ter publicado um livro – “manda pra uma editora, eles publicam qualquer merda que a gente mandar. Não vende nada, mas publicar é fácil”, aconselhou o mais velho e experiente. Do episódio Antonio extraiu a gana para iniciar a carreira com o bem recebido livro de contos Douglas e outras histórias (Azougue, 2001). Depois vieram As pernas da tia Corália (Objetiva, 2003) e O inferno atrás da pia (Objetiva, 2004).

Pão com queijo da maioria dos que desejam viver da escrita em terras tupiniquins, as crônicas começaram numa revista da MTV e logo surgiu o convite para escrever para a revista Capricho, onde permaneceu até 2008 e cativou toda uma geração de fãs adolescentes. As melhores crônicas desse período podem ser encontradas nas coletâneas sugestivamente entituladas Estive pensando… (Marco Zero, 2003) e Adulterado (Moderna, 2009).

Por sua vez, o título de Meio intelectual, meio de esquerda (Editora 34, 2010) é extraído da primeira frase do grande hit de Antonio Prata: Bar ruim é lindo, bicho, único texto no livro publicado primeiramente na internet, no site Blônicas, e logo espalhado como fogo em palha entre os que vestiram a carapuça. Trata-se de uma crônica que já passou ao imaginário coletivo, mas não se sabe se essa terá sido a motivação para que a recém-lança da coletânea tenha sido incluída entre os dez livros brasileiros fundamentais da década, na lista composta em dezembro pela revista Bravo! 

Prata demonstra lucidez em ser considerado “o melhor cronista de sua geração”: “Num país que tem uma classe média grande, a Espanha, Inglaterra ou Estados Unidos, um aut or vender 50 mil exemplares diz alguma coisa. No Brasil, como ninguém vende nada, quem vende a crítica não gosta, pinçar quem é bom, quem é importante, acaba na mão de jornalistas e de críticos que escolhem esse ou esse. Fica uma geléia ali e só daqui a u m tempo vamos saber quem é importante”, frisa ele. 

Enquanto esse tempo não chega, Antonio Prata segue os trabalhos, seja adaptando um dos textos teatrais do pai – Purgatório (1984) – para o cinema, lapidando o primeiro ro mance, encomenda da coleção Amores Expressos da Companhia das Letras, ou prosseguindo com as crônicas, que a partir deste mês de janeiro passam a sair na Folha de São Paulo, no oportuno caderno Cotidiano, sempre às quartas-feiras. 

*com a colaboração de Bruno Dorigatti

Felipe Pontes

Posted on Thursday November 25th 2010 at 09:39pm. Its tags are listed below.

O Otimismo de Robert Capa //

Sem os trens de pouso, uma das “fortalezas voadoras” - o bombardeiro B17 - é obrigada a realizar um pouso forçado, de barriga, na base aérea norte americana de Chelveston, Inglaterra. Em prontidão, Robert Capa prepara sua Contax e, após o socorro ao resto da tripulação mutilada, captura o rosto em close do piloto que sai da aeronave, aparentemente ileso, a não ser por um ligeiro corte na testa. “Eram essas as fotos que você estava esperando, fotógrafo?”, condena o jovem oficial. Robert Capa, grande mito do fotojornalismo mundial, também teve que lidar com o dilema primordial do métier.  

“A pior coisa é sentir que como fotógrafo eu me beneficio da tragédia alheia”, escreveu certa vez James Nachtwey, um dos correspondentes de guerra mais conceituados da atualidade. Retratado no documentário War Photographer (2001), Nachtwey possui a personalidade amarga e séria facilmente atribuída a esses profissionais, testemunhas oculares das piores cenas de sofrimento humano. Já Capa, o homem, encontrava no humor a melhor forma de lidar com suas lembranças, transcritas por ele no texto memorial Ligeiramente fora de foco, relato sobre a experiência na II Guerra Mundial até agora inédito no Brasil, recém-lançado pela editora Cosac Naify.

Ao sair da Hungria aos 18 anos de idade, Capa acalentava o sonho romântico de ser escritor e repórter, o que de fato foi, antes de a fotografia entrar em sua vida. E ninguém com melhor conhecimento de causa para nos revelar seu incrível carisma como contador de histórias nato do que seu irmão, Cornell Capa, autor do prefácio da nova edição de Ligeiramente fora de foco. Tanto que recém-saído da guerra, Robert Capa levou seu charme aos bastidores de Hollywood e teve um caso com a grande estrela do cinema Ingrid Bergman, inspirando a trama do clássico filme Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock. Antes mesmo de estar perto de terminar de escrever suas memórias, o fotógrafo já as havia vendido a um editor nova-iorquino.

Lançado em julho de 1947, o livro recebeu excelentes resenhas e foi um sucesso entre os leitores, muito devido à irreverência do tom coloquial de Capa, em grande medida explicado pelo fato de boa parte do texto ter sido ditada. Isso nos permite perfeitamente imaginar estar ouvindo da boca do próprio autor, numa mesa de restaurante qualquer, o relato do que parece ser uma grande anedota, emoldurada por uma excitante história de amor. Ele “escrevera seu livro não para ser tomado como um documento histórico, mas sim para servir, com poucas alterações, de base para um roteiro de cinema interessante”, descreve Richard Whelan, autor da introdução da nova edição e amigo pessoal, editor e biógrafo de Capa.  

Mas a auto-ironia expressa já no título – uma avaliação honesta de uma das fotos mais célebres de Capa, a dos paraquedistas americanos saltando sobre a Sicília na invasão aliada de 1943, para ele ligeiramente fora de foco – não é suficiente para nos fazer esquecer de que o assunto principal da narrativa é o maior conflito armado da História. Morto em 1954 ao pisar em uma mina terrestre na Indochina, Capa leva até o fim a máxima criada por ele mesmo e adotada por sucessivas gerações de fotojornalistas: “se suas fotos ainda não estão boas o suficiente, é porque você ainda não está perto o suficiente”. Fosse na Inglaterra, no norte da África ou no sul da Itália, armado apenas com seu equipamento, sua preocupação constante foi sempre “chegar rapidamente ao cenário de guerra”, junto com o front, e por isso foi o único fotógrafo a por os pés na costa da França, dentre os quatro escolhidos para desembarcar na Normandia do dia D.  

Como não poderia deixar de ser, Ligeiramente fora de foco é não só uma narrativa verbal, como também visual. Sincronizadas na cronologia da história estão um número farto de imagens editadas pelo própria Capa. Mas ao contrário da maioria das fotografias de guerra, o mestre do fotojornalismo transparece nos quadros não a crueza de corpos esfacelados e sim um grande otimismo diante das situações mais desesperadoras, seja no balde que serve de mesa para a sagrada hora do chá em um abrigo anti-bomba inglês ou no homem com uma pá e um balde diante das gigantescas ruínas do prédio central dos correios, em Nápoles. Um reforço do mesmo otimismo e presença de espírito com que Capa narra as situações mais absurdas, a começar por ter conseguido se cadastrar correspondente de guerra no Exército dos Estados Unidos, mesmo sendo húngaro, nacionalidade inimiga dos aliados.

O projeto estético de Luiz Eduardo Soares

O apartamento em São Conrado, bairro de classe alta do Rio de Janeiro, não fica virado para o mar, mas de fundos, com vista privilegiada para a favela da Rocinha; solícito, Luiz Eduardo Soares atende em casa. Emendou uma entrevista atrás da outra. De uma sobre assuntos gerais, em especial o futebol, dada a um colega blogueiro da Polícia Federal, embarcou praticamente sem interrupção na conversa com o SaraivaConteúdo, dessa vez sobre a sua trajetória política e literária. Pioneiro no estudo das políticas de segurança pública no Brasil, o antropólogo escreveu seis livros, entre eles o best-seller Elite da Tropa(Nova Fronteira) e, o mais recente, Elite da Tropa 2 (Nova Fronteira) - ambos como co-autor.

Desde 1974, a ocupação principal de Soares é a pesquisa e o ensino em ciências sociais. Lecionou antropologia na Unicamp no início dos anos 1980 e durante 15 anos foi professor de ciência política no respeitado Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Hoje coordena a especialização em segurança pública da Universidade Estácio de Sá e dá aulas na pós-graduação em direitos humanos e ciências sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Mas na sala de estar forrada de livros, há quase nada de bibliografia teórica. A grande maioria dos títulos é de ficção, um vasto acervo de literatura nacional e estrangeira.

Uma das prateleiras, inclusive, é dedicada aos romances gráficos, as histórias contadas em quadrinhos. “O primeiro artigo que eu publiquei nos anos setenta foi sobre a linguagem em quadrinhos - na época isso estava ligado a poema-processo, aos concretos, havia um interesse na valorização de novas linguagens”, diz ele, que teve sua primeira formação na área de letras e prepara para o início de 2011 o próximo livro, uma não-ficção sobre a trajetória de um famoso traficante internacional de drogas. O respectivo graphic novel, desenhado pelo artista gráfico Marcus Wagner, sai no segundo semestre do ano que vem.

O segundo artigo publicado por Soares, ainda em 1974, foi sobre a criação de Asdrúbal trouxe o trombone, importante grupo de teatro de vanguarda do qual fez parte. Fica evidente assim um traço característico de sua competência como intelectual: ao mesmo tempo em que procura se envolver na linha de frente de um pensamento prático-político realmente efetivo, se empenha com a mesma desenvoltura no campo da cultura e da arte. 

Já comprovada por crítica e público a capacidade dos discursos tanto do livro (Elite da Tropa) quanto do filme (Tropa de Elite) em despertar discussões para além do mero entretenimento, Soares nos expõe um projeto consciente de militância em um plano simbólico, de intenção artística e política. Desde o início ele se dispôs a construir uma tetralogia da violência urbana, dedicada a matizar os estereótipos dos diferentes personagens envolvidos nesse cenário. Através de testemunhos numa linguagem narrativa, a ideia é que um público vasto seja capaz de compreender e vivenciar uma empatia com os dramas humanos descritos ali.

“Veja que curioso, do ponto de vista de vários filósofos, psicólogos e estudiosos do fenômeno da ética, o que constitui a moralidade como campo é a capacidade de deslocamento imaginário para a posição do outro”, ensina Soares. Essa estratégia discursiva é o principal ponto de contato entre as obras audiovisual e escrita, já que em termos de conteúdo, apesar de o Capitão Nascimento (Wagner Moura) ilustrar a capa do livro, os dois trazem tramas independentes.

Elite da Tropa 2 (Nova Fronteira) tem como narrador um ex-delegado da Delegacia de Combate ao Crime Organizado da Polícia Civil, a Draco. Condenado por um acidente a permanecer em uma cadeira de rodas, ele encontra alívio para sua imobilização em escrever os casos de violência operados pela milícia no Rio de Janeiro. Engana-se quem se precipita em classificar o livro apenas como uma espécie pulp fiction de ação. Por meio até de uma perfil no Twitter, o narrador denuncia o lado podre das polícias.

Funcionando como um catalisador, Soares mobilizou uma série de personalidades um tanto diferentes em prol da realização de seu projeto estético-político. Começou em 2005 com Cabeça de Porco (Objetiva), escrito em co-autoria com MV Bill e Celso de Athayde, cujas visitas a comunidades pobres de diferentes metrópoles brasileiras, entrevistando jovens cooptados pela vida criminosa, resultaram também no chocante documentário Falcão – meninos do tráfico (disponível na íntegra no YouTube). Partiu então para explorar o ponto de vista do policial, lançando em 2006, ao lado dos policiais militares André Batista e Rodrigo Pimentel, o primeiro Elite da Tropa (Nova Fronteira). A seguir, explorou o universo do judiciário em Espírito Santo (Objetiva), escrito em parceria com o juiz e ex-secretário de segurança capixaba Rodney Rocha Miranda em 2009. E saiu agora a pouco o Elite da Tropa 2, em que retoma a perspectiva dos agentes de segurança em situações ficcionais largamente inspiradas em acontecimentos verdadeiros.

 

Quando um chamado ‘bonde’ de traficantes fortemente armados, que retornavam de uma festa no Vidigal para a Rocinha, acabou se confrontando com a polícia nas ruas de São Conrado em plena manhã de sábado de 21 de agosto deste ano, resultando na invasão do hotel Intercontinental, Luiz Eduardo Soares foi o homem que relatou o que acontecia, praticamente em frente ao condomínio onde mora, no calor da hora, ao vivo pela rádio CBN. O episódio serve para ilustrar a posição de referência do antropólogo quando se fala em violência urbana. Nos trechos da entrevista ao SaraivaConteúdo transcritos abaixo ele conta sobre o surgimento dos dois Elite da Tropa e nos dá uma aula sobre as verdadeiras intenções de sua obra literária.

 Como você acabou se dedicando mais a literatura? 

Luiz Eduardo Soares. Eu sou professor universitário há 35 anos na área de antropologia e ciência política. Mas eu me formei em literatura na graduação, então sempre mantive um interesse grande e uma proximidade com amigos dessa área, com a produção, e sempre acompanhei a crítica literária. Isso sempre esteve presente. Em 1996 eu escrevi um romance, chamado Experimento de Avelar (Relume Dumara). Depois, nos anos 2000, eu comecei a ter a oportunidade de experimentar a combinação da minha formação acadêmica com esse interesse por outras linguagens, e acho que isso que foi importante para mim.  Eu me aproximei do tema segurança pública e violência nos anos oitenta, porque era já um tema muito importante no Rio e havia não muita gente envolvida nisso. Isso como pesquisador, estudioso, escrevendo sobre o assunto e etc., o que acabou me levando para o governo, primeiro como consultor, depois até assumindo responsabilidade de gestão. Um caminho mais ou menos natural.

Quando eu tive a oportunidade de mergulhar na prática da gestão e atuar por dentro dos bastidores, e como tive a vida inteira o olhar de pesquisador, de observador, assim como o interesse em escrever usando outras linguagens além da acadêmica, houve essa confluência. Eu tomei a minha experiência nos governos, assim como tomava antes as pesquisas, como base para a elaboração de trabalhos e aí começam esses textos que me aproximam de outras linguagens.

Como você conheceu os colaboradores de Elite da Tropa 2?

 Soares. Os primeiros que eu conheci foramo Rodrigo Pimentel e o Cláudio Ferraz. Quando eu estava no governo em 1999, convidei o Cláudio para dirigir a reforma da perícia e nos tornamos ali amigos. O Pimentel se tornou um personagem público através do documentário Notícias de uma guerra particular (João Moreira Salles, 1999). Ele se destacava ali e o que ele disse deu nome ao filme e abriu perspectiva de um certo tipo de entendimento. Ele é um sujeito muito inteligente e muito corajoso. E depois que falou com o João, nunca parou de falar e colecionava punições. Ele não queria ir muito longe na carreira porque não estava disposto a negociar sua liberdade e não aceitava a censura. Por isso, volta e meia era preso. Quando fui para o governo em 1999 ele deu uma entrevista de página inteira ao Jornal do Brasil me criticando e criticando a política de segurança pública. Quando eu li, pensei “puxa, esse rapaz é sensacional”. Porque o problema não é concordar ou discordar. O problema é discutir com inteligência, mostrar interesse por aquilo e ser capaz de dialogar. Isso é extraordinário. Se todos os policiais fizessem esse esforço de reflexão e crítica, estaríamos num outro mundo. Isso á maravilhoso. Ele foi preso. Naquela mesma noite falei com o comandante geral da PM que eu queria que ele não só fosse libertado como viesse trabalhar comigo, eu ia convidá-lo. Entre a cela e coordenadoria, ele topou e nos tornamos amigos.

Como surgiu a ideia de escrever o Elite da Tropa?

Soares. Surgiu em 2002, no projeto da tetralogia. O primeiro seria fazer o mergulho com Celso [de Athayde] e [MV] Bill, o Cabeça de Porco (Nova Fronteira), e o segundo no universo da polícia, do BOPE e tal. Lançamos o Cabeça em 2005 e tive que começar logo o outro. Liguei para o Pimentel e falei “vamos fazer?”, e ele sugeriu o Batista também. Eu conhecia o Batista de fato desde 2002. Ele já era do BOPE e trabalhava na segurança pessoal do secretário [de segurança]. O encontrei várias vezes, uma pessoa simpática, tinha ótimas informações e tive uma boa impressão sobre ele. E o Pimentel falou “chama o Batista também, porque está querendo nos ajudar no filme que o Padilha está querendo fazer, não um documentário como pensou de início, mas uma ficção com base documental sobre a policia. O Padilha está chamando o Batista também porque ele tem uma história pessoal incrível”, e tal. Fomos almoçar com o Zé [Padilha] e ele já estava trabalhando na primeira versão do roteiro e já tinha o nome Tropa de Elite, aí eu falei do meu projeto e disse “bom, vamos fazer, as fontes podem ser as mesmas, isso pode ficar interessante e o nome vai ser Elite da Tropa, vamos citar, vamos fazer dessa maneira, mas com autonomia”. O projeto que eu apresentei à editora Objetiva em 2002 previa justamente isso, outro livro comigo e mais duas pessoas, envolvidas no universo em questão, como autores. Então nasceu assim, desse projeto de 2002 e dessa relação antiga com o Pimentel, como contei.

E como se deu esse processo de criação coletivo?

Soares. Em nenhum caso eu analisaria os outros dois, ou agiria como um intelectual que estuda o relato dos outros dois, não seria essa a relação. No Cabeça de Porco, por exemplo, cada um de nós assina seus próprios capítulos e eu não analiso nenhum deles, nós dialogamos, trocamos ideias mesmo, é um livro composto, um mosaico. No Elite da Tropa, a mesma coisa, eu escreveria todo o livro, mas faríamos esse mergulho numa perspectiva narrativa e as histórias viriam de nós três, de fato as nossas vivências. E ali é muito claro, as vivências, depoimentos, coleta de depoimentos dos dois [Batista e Pimentel] estão lá na primeira parte. A minha história, o meu depoimento ficcionalizado, está na segunda parte, mesmo que eu escrevesse todo o livro, porque ali a metodologia teve que ser diferente.

Então desde sempre a ideia foi fazer livros de ficção?

Soares. Não, nossa ideia era contar a verdade, a realidade daquilo que havíamos vivido, porque nós achávamos que a população de uma forma geral não tem a menor ideia do que acontece realmente. E nisso a arte cumpre papel crucial. Segundo o filósofo já falecido Richard Rorty, meu mestre no pós-doutorado que fiz nos Estados Unidos e dono da citação na epígrafe de Elite da Tropa 2, nós  precisamos hoje não mais de tratados filosóficos, como no século XVIII, para demonstrar a superioridade da paz em relação à guerra. Nós precisamos de jornalismo, reportagem, etnografia, romance, literatura, cinema e documentário, precisamos, em suma, das narrativas. Porque é preciso relatar experiências de tal modo que a empatia possa ser vivenciada. Isso é muito mais forte do ponto de vista da efetividade do que o puro esforço reflexivo racional. Se você der a alguém um tratado filosófico kantiano mostrando a superioridade da paz perpétua, você pode eventualmente persuadir dois ou três. Da persuasão à emoção, que conduz à prática, há intervalos e brechas e hesitações, e dificilmente você irá além do universo dos filósofos, das pessoas capazes de decodificar aquela linguagem particular. Mas se você apresentar uma narrativa tendo um indivíduo como referência – seja lá qual for o tema, um tsunami, a peste bubônica, a pena de morte –, a capacidade que o texto terá de chegar à prática do outro, passando pela sua persuasão e suas emoções, conduzindo-o a uma nova ética, uma nova ação, serão muito maiores, as chances serão muito maiores de você ser muito mais efetivo.

Se você conta uma história de vida individual, gerando condições, pela narrativa, de trazer o leitor para as emoções vivenciadas pelo locutor, pelo narrador, pelo personagem, aí você abre uma outra ponte existencial, psicológica, simbólica extraordinariamente mais forte. Eu acredito nisso. Não falo isso para subestimar o trabalho acadêmico, que é insubstituível, evidentemente, mas para justificar a necessidade de uma abordagem que amplie, que crie, que trabalhe com outras linguagens e perspectivas. 

Felipe Pontes

Posted on Monday November 15th 2010 at 08:44pm. Its tags are listed below.

Uma menina vestida com a camisola fina a imprimir na alma o “disco argêntio do plenilúnio observado da janela no oitão branco, batido do luar, da velha casa da fazenda”. A imagem não é inventada por outro. Primeira mulher a ser eleita para a Academia Brasileira de Letras, foi com essas palavras que Rachel de Queiroz descreveu sua primeira “intoxicação poética”, no discurso de posse da cadeira número cinco em 1977. Ainda em Quixadá (CE), onde passou a maior parte da juventude, a adolescente se afogava nos versos parnasianos do maranhense Raimundo Correia (um dos fundadores da ABL). 
Nascida em 17 de novembro de 1910 numa família bastante apegada à leitura, sabemos agora, à beira do centenário de seu nascimento, que a Rachel de Queiroz imortalizada pela prosa dos romances e crônicas, na verdade começou sua produção literária em verso. Guardião de seu acervo, com mais de 5 mil itens, o Instituto Moreira Salles prepara a publicação de dez poemas inéditos da escritora, produzidos em meados de 1928, ainda antes da estréia de O quinze (1930), e agora reunidos no volume Mandacaru.
Já emancipada dos primeiros sonhos de menina, a segunda paixão poética da jovem Rachel, ela mesmo declarava, foi Manuel Bandeira, o que dá uma pista do que encontramos em Mandacaru. Os poemas não são avulsos, foram concebidos em conjunto, e “Rachel escreveu o prefácio endereçado aos modernistas do Sudeste”, explica Elvia Bezerra, responsável pelo análise dos versos. Na apresentação, a escritora cearense anunciava seu prodígio esforço literário como um “balbucio do Nordeste” em contribuição, mesmo que tardiamente, ao projeto de Brasil dos modernistas. Isto é, nada de arrebatamentos juvenis ou anseios de moça. “Apesar do ambiente simbolista que permeava o Ceará da época, ela já estava em busca de seu estilo enxuto natural e delineava ali os temas que viria a desenvolver em O quinze, como a seca e o êxodo”, continua Bezerra. Segundo a pesquisadora, reside aí o valor documental que por si só justifica a publicação da obra, renegada por Rachel de Queiroz até o fim.
Mandacaru será lançado em 17 de novembro, na sede do Rio de Janeiro do IMS. O volume trará os fac-símiles dos poemas e também do primeiro texto publicado por Rachel de Queiroz na imprensa brasileira, no caso, no jornal O Ceará. No mesmo dia, às 16h, será exibido o filme O cangaceiro, de 1954, dirigido por Lima Barreto, com diálogos de Rachel de Queiroz; às 19h, a ensaísta e professora Heloisa Buarque de Hollanda realizará uma conferência sobre a obra da autora; às 20h, será aberta a exposição Rachel de Queiroz centenária.
Uma menina vestida com a camisola fina a imprimir na alma o “disco argêntio do plenilúnio observado da janela no oitão branco, batido do luar, da velha casa da fazenda”. A imagem não é inventada por outro. Primeira mulher a ser eleita para a Academia Brasileira de Letras, foi com essas palavras que Rachel de Queiroz descreveu sua primeira “intoxicação poética”, no discurso de posse da cadeira número cinco em 1977. Ainda em Quixadá (CE), onde passou a maior parte da juventude, a adolescente se afogava nos versos parnasianos do maranhense Raimundo Correia (um dos fundadores da ABL). 
Nascida em 17 de novembro de 1910 numa família bastante apegada à leitura, sabemos agora, à beira do centenário de seu nascimento, que a Rachel de Queiroz imortalizada pela prosa dos romances e crônicas, na verdade começou sua produção literária em verso. Guardião de seu acervo, com mais de 5 mil itens, o Instituto Moreira Salles prepara a publicação de dez poemas inéditos da escritora, produzidos em meados de 1928, ainda antes da estréia de O quinze (1930), e agora reunidos no volume Mandacaru.
Já emancipada dos primeiros sonhos de menina, a segunda paixão poética da jovem Rachel, ela mesmo declarava, foi Manuel Bandeira, o que dá uma pista do que encontramos em Mandacaru. Os poemas não são avulsos, foram concebidos em conjunto, e “Rachel escreveu o prefácio endereçado aos modernistas do Sudeste”, explica Elvia Bezerra, responsável pelo análise dos versos. Na apresentação, a escritora cearense anunciava seu prodígio esforço literário como um “balbucio do Nordeste” em contribuição, mesmo que tardiamente, ao projeto de Brasil dos modernistas. Isto é, nada de arrebatamentos juvenis ou anseios de moça. “Apesar do ambiente simbolista que permeava o Ceará da época, ela já estava em busca de seu estilo enxuto natural e delineava ali os temas que viria a desenvolver em O quinze, como a seca e o êxodo”, continua Bezerra. Segundo a pesquisadora, reside aí o valor documental que por si só justifica a publicação da obra, renegada por Rachel de Queiroz até o fim.
Mandacaru será lançado em 17 de novembro, na sede do Rio de Janeiro do IMS. O volume trará os fac-símiles dos poemas e também do primeiro texto publicado por Rachel de Queiroz na imprensa brasileira, no caso, no jornal O Ceará. No mesmo dia, às 16h, será exibido o filme O cangaceiro, de 1954, dirigido por Lima Barreto, com diálogos de Rachel de Queiroz; às 19h, a ensaísta e professora Heloisa Buarque de Hollanda realizará uma conferência sobre a obra da autora; às 20h, será aberta a exposição Rachel de Queiroz centenária.

Uma menina vestida com a camisola fina a imprimir na alma o “disco argêntio do plenilúnio observado da janela no oitão branco, batido do luar, da velha casa da fazenda”. A imagem não é inventada por outro. Primeira mulher a ser eleita para a Academia Brasileira de Letras, foi com essas palavras que Rachel de Queiroz descreveu sua primeira “intoxicação poética”, no discurso de posse da cadeira número cinco em 1977. Ainda em Quixadá (CE), onde passou a maior parte da juventude, a adolescente se afogava nos versos parnasianos do maranhense Raimundo Correia (um dos fundadores da ABL). 

Nascida em 17 de novembro de 1910 numa família bastante apegada à leitura, sabemos agora, à beira do centenário de seu nascimento, que a Rachel de Queiroz imortalizada pela prosa dos romances e crônicas, na verdade começou sua produção literária em verso. Guardião de seu acervo, com mais de 5 mil itens, o Instituto Moreira Salles prepara a publicação de dez poemas inéditos da escritora, produzidos em meados de 1928, ainda antes da estréia de O quinze (1930), e agora reunidos no volume Mandacaru.

Já emancipada dos primeiros sonhos de menina, a segunda paixão poética da jovem Rachel, ela mesmo declarava, foi Manuel Bandeira, o que dá uma pista do que encontramos em Mandacaru. Os poemas não são avulsos, foram concebidos em conjunto, e “Rachel escreveu o prefácio endereçado aos modernistas do Sudeste”, explica Elvia Bezerra, responsável pelo análise dos versos. Na apresentação, a escritora cearense anunciava seu prodígio esforço literário como um “balbucio do Nordeste” em contribuição, mesmo que tardiamente, ao projeto de Brasil dos modernistas. Isto é, nada de arrebatamentos juvenis ou anseios de moça. “Apesar do ambiente simbolista que permeava o Ceará da época, ela já estava em busca de seu estilo enxuto natural e delineava ali os temas que viria a desenvolver em O quinze, como a seca e o êxodo”, continua Bezerra. Segundo a pesquisadora, reside aí o valor documental que por si só justifica a publicação da obra, renegada por Rachel de Queiroz até o fim.

Mandacaru será lançado em 17 de novembro, na sede do Rio de Janeiro do IMS. O volume trará os fac-símiles dos poemas e também do primeiro texto publicado por Rachel de Queiroz na imprensa brasileira, no caso, no jornal O Ceará. No mesmo dia, às 16h, será exibido o filme O cangaceiro, de 1954, dirigido por Lima Barreto, com diálogos de Rachel de Queiroz; às 19h, a ensaísta e professora Heloisa Buarque de Hollanda realizará uma conferência sobre a obra da autora; às 20h, será aberta a exposição Rachel de Queiroz centenária.

Felipe Pontes

Posted on Monday October 25th 2010 at 12:00am. Its tags are listed below.

Peter Burke
Apesar do alerta nas escolas desde cedo, corriqueiramente esquecemos que proveito se pode tirar do conhecimento da História. Em tempos de memória caduca e anacrônica, o historiador Peter Burke é voz ativa em nos chamar a atenção. “É freqüente encontrar em seus textos uma ponte entre nosso tumultuado presente e os modos e costumes do passado”, escreveu o sociólogo brasileiro José de Souza Martins na orelha de O historiador como colunista (Civilização Brasileira, 2009), último livro inédito de Burke a ser lançado no Brasil, composto pelos artigos quinzenais que o historiador publica no jornal Folha de S. Paulo há 12 anos.   
Entre 1993 e 1994, Martins foi colega de Burke na University of Cambridge, onde o historiador inglês é professor emérito de história cultural. Peter Burke é hoje referência viva da Nova História, terceira fase da iconoclasta Escola de Annales. Sua linha de estudo privilegia a vida cotidiana e o percurso das ideias, as chamadas mentalidades, em detrimento à mera enumeração de acontecimentos político-militares. Credita-se a essa escola historiográfica, e a suas sumidades, como Fernand Braudel e Jacques Le Goff, o valor que hoje se reconhece nos objetos, na iconografia, no audiovisual e no relato oral como documentos tão importantes e reveladores do passado quanto os registros escritos.
Casado com a brasileira Maria Lucia Pallares-Burke, também historiadora, Peter Burke possui um relação próxima com o Brasil desde 1986, quando foi convidado a dar aulas na Universidade de São Paulo. Prolífico escritor, é autor de 28 livros traduzidos em cerca de 30 línguas – alguns já bibliografia básica em cursos de graduação em História no país, como Uma história social da mídia (Jorga Zahar, 1994) e Cultura popular na idade moderna, recentemente republicado em edição de bolso pela Companhia das Letras. Ele esteve na última Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), entre os dias 4 e 8 de agosto desse ano.
Junto com a esposa, Burke é responsável por divulgar a obra de Gilberto Freyre, homenageado da Flip desse ano, em meio ao mundo anglófono. Mas sua participação na Flip teve outra natureza. Ele integrou, ao lado de Robert Darnton, historiador do livro e diretor da biblioteca da Universidade de Harvard, a mesa sobre o assunto que mais agita o mercado editorial: o destino do livro na era digital. “As pessoas que ainda querem tocar o papel e cheirar o livro, e daí em diante, terão que estar preparadas para pagar mais. Será um tipo de sistema de dois níveis para os livros eu acho”, diz Burke na entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo que você confere abaixo.
No final de Fabricação do rei (Jorge Zahar, 2009. 2. ed.), você fala sobre quando os agentes publicitários começaram a desenvolver a imagem dos politícos, como Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Nos dias de hoje, na era digital, com a internet, e até no contexto brasileiro, com a Dilma pegando carona na imagem de Lula, como você vê esse processo de fabricação de políticos e líderes?
Peter Burke. Não tenho certeza se isso está mudando com a digitalização. Eu acho que a partir da era da câmera de televisão os políticos já estão em cena quase o tempo todo. Até quando eles pensam que estão fora do palco, estão encenando, porque tem havido esses famosos incidentes nos últimos dez anos em que gravadores estão ligados e [George W.] Bush, ou algum outro, pensa que estão desligados e começam a falar o que realmente pensam e é tudo captado. Bem, com e-mails é o mesmo problema. Você escreve e-mails achando que são confidenciais e no dia seguinte os vê publicados num jornal.
Já por muitos anos os políticos tiveram que conviver com essa ideia de que suas vidas privadas são públicas. Talvez as técnicas modernas estejam tornando ainda mais fácil invadir a vida privada do que antes, mas há uma longa tradição em invadir a privacidade. 
O que me interessou no caso de Luiz XIV foi que algumas dessas coisas já existiam no lado da propaganda. Já havia um comitê oficialmente estabelecido para cuidar da imagem do rei nas diferentes mídias daquele tempo, como tapeçarias, moedas e medalhas, gravuras. Enfim, eles olhavam para isso tudo e decidiam, isso vai dar ao rei uma boa imagem ou não? Devemos permitir que isso aconteça ou não? Bom, por outro lado, há todo um underground de imagens do rei, das quais o rei não se importava, que ele não podia impedir, as quais circulavam privadamente. Então, tudo isso já estava em cena no século XVII. 
Nessa época, essa fabricação da imagem se deu mais através da arte, certo? Através de esculturas, quadros etc.?
Burke. Ah, sim. Do lado oficial havia essas estátuas de Luis XIV erguidas em todas as cidades principais do reino. Em contrapartida, às vezes, à noite, pessoas escreviam grafites desrespeitosos nos pedestais e então, em Paris, foram colocadas barreiras ao redor [das estátuas]. Isso mostra que havia tanta gente querendo escrever coisas desrespeitosas que eles tiveram de cercar as estátuas.
Falando um pouco em relação ao conhecimento e às crianças que vão à escola hoje. Às vezes era necessário decorar muitas informações, mas agora se tem ferramentas como o Google, no qual se pode simplesmente buscar esses dados instantaneamente. Como você vê a educação combinando esses processos para as novas gerações?
Burke. Bom, como a maioria das mudanças, há um lado positivo e um lado negativo disso. O lado positivo é o que você mencionou. Não é preciso mais fazer a criança saber a data de batalhas de cor. Se por alguma razão for realmente necessário saber a data de uma batalha, eles clicam na Wikipédia, ou algo assim, e acham instantaneamente.
Mas eu ficaria bem desapontado se o ato de aprender coisas de cor desaparecesse por completo. Particularmente, a poesia. E isso ficou bem claro na Flip, porque lá estava Edson Nery da Fonseca que sabia de cor um poema de Gilberto Freire e sem nenhum pedaço de papel ele o recitou com grande paixão. Eu ainda posso recitar poemas de memória, não porque fui feito para aprendê-los, mas os li com tanta frequência para mim mesmo que acabei decorando-os. É um grande prazer poder recitar um poema e não precisar olhar em um livro ou na internet ou algo assim. 
Tenho um pouco de medo pelas crianças de hoje, que nasceram em um mundo onde a internet já estava lá. Será que elas vão perder essa arte? Não há razão para que elas tenham que perder. Nós podemos dispor as escolas para que aprendam esse tipo de coisa. E, de fato, há mais tempo para isso, porque elas já não estão aprendendo mais as datas. Mas elas ainda tem que decorar a tabuada. [risos] Eu não acho que todas as vezes que você queira saber quanto é 14 vezes sete se tenha que ir ao Google para descobrir. Ainda há um papel para o bom aprendizado oral à moda antiga, mesmo que um espaço menor, agora, graças a esses novos meios de comunicação. 
Sobre o copyright. Nós vimos uma grande mudança na indústria da música e a indústria do livro tem muito a aprender com o exemplo. Agora temos os e-books ganhando espaço. Diante das mudanças na indústria cultural e baseado na experiência da música, em que as grandes gravadoras perdem espaço e as pessoas estão parando de comprar CDs e DVDs, você acha que os livros também deixarão de ser vendidos? As pessoas poderão não comprar mais livros? 
Burke. Isso é difícil de dizer. É mais fácil perceber o que tem acontecido com os jornais, pois está ocorrendo mais rápido e porque eu acho que ler um jornal on-line é uma atividade bem mais fácil do que ler um livro on-line. Porque nós já aprendemos a ler jornais pulando rapidamente de uma manchete para a outra, quer dizer, é o que eu chamaria escanear em vez de ler. E então isso quer dizer que as vendas de jornais em papel caem e, ainda pior, os anunciantes não se interessam mais em anunciar num jornal que não vende cópias o bastante. Mas algo interessante aconteceu na Inglaterra quando esse russo bilionário, [Alexander] Lebedev, comprou o jornal Evening Standard, que perdia dinheiro, e decidiu torná-lo gratuito. Assim que isso aconteceu, o número de leitores, é claro, subiu, o que significa que os anunciantes voltaram. Então agora ele lucra. Quer dizer, dar de graça traz lucro e vender traz prejuízo [risos]. 
Eu não acho que isso acontecerá, na mesma escala, com o livro. Suponho que haverá dois preços para os livros agora. O mais barato on-line, mas as pessoas que ainda querem tocar o papel e cheirar o livro, e daí em diante, terão que estar preparadas para pagar mais. Será um tipo de sistema de dois níveis para os livros eu acho.   
E o quanto mais longo o livro, o menos confortável é, claro, lê-lo no Kindle ou algo assim. Eu estava falando ontem a noite: como você vai ler Guerra e paz [de Tolstói]? É não só um esforço para os olhos, é um esforço para os braços e eu não acho que a nova tecnologia é boa para livros longos. Assim eu temo que talvez no futuro as pessoas possam não escrever mais livros longos, que elas decidam escrever somente livros curtos, ou que tenham a diminuição do livro. Ok, eu não tenho nada contra o livro curto. Eu escrevo livros curtos, leio livros curtos. Mas eu ficaria muito triste se livros antigos fossem curtos e se as crianças de hoje fossem privadas de alguns livros longos do passado que são maravilhosos, como Tolstói. Mais uma vez, e isso é um lugar comum em história, há um lado bom e um lado ruim eu acho que em qualquer tipo de mudança que se possa imaginar. O que é bom para uns, é ruim para outros. O que é bom de alguma maneira, é ruim de outra. Nós temos apenas que conviver com isso. 
Há algum livro que você tenha escrito e possa dizer que é seu preferido, ou isso é muito difícil?
Burke. Para mim é muito difícil. O que apanho no mundo externo é que as pessoas acham que meu melhor livro é Cultura popular na idade moderna (Companhia das Letras), que em alguns aspectos é bom, mas o escrevi quando tinha 39 anos e eu gostaria de pensar que melhorei desde então, mas ninguém concorda, talvez porque aquele foi o livro certo na hora certa sobre o assunto certo. Eu gosto de pensar agora que eu tenho explorado alguns tópicos que o público, até outros historiadores, ainda não apanharam. Eu estou esperando que o que escrevi sobre a história da linguagem será um tema de maior interesse em dez ou 15 anos do que é agora. Eu gostaria de pensar que isso é porque eu sou um pioneiro. Mas é claro que as pessoas podem ter opiniões bem erradas sobre si mesmas. Estou estudando Gilberto Freyre, alguém com todos esses talentos, mas nem sempre ele avaliou bem qual o seu pior ou melhor trabalho. Então, se ele não pode fazê-lo, eu certamente não posso.
Qual o tema que hoje em dia o fascina mais? O que tem te motivado?  
Burke. O que estou escrevendo agora, e portanto tem puxado todo o resto para segundo plano, é o segundo volume da História do Conhecimento. Escrevi o primeiro que vai de Gutemberg a Diderot e agora eu achei um bom título para o período entre a Enciclopédia e a Wikipédia. Talvez eu não tivesse ousado fazer isso há dez anos. De qualquer forma, quando estava ensinando em tempo integral, era suposto ensinar os séculos XVI e XVII. Mas agora que me aposentei, não tenho período, posso escrever sobre absolutamente o que quiser. Eu comecei a pensar: como chegamos até onde estamos hoje desde os tempos de Diderot? Bem, a única maneira de descobrir é fazer a pesquisa, porque não há livro que conta essa história. Às vezes você quer ler um livro e esse livro não existe, então você acaba escrevendo o livro que gostaria de ler e esperava que alguém tivesse escrito. É bem excitante. Quer dizer, é perigoso para mim, porque eu nunca trabalhei nos séculos XIX e XX dessa maneira. Quando você vem trabalhando 14 anos em um período, começa a temer ficar banal e acabar repetindo a si mesmo. Bem, se eu não tiver nenhuma nova ideia, pelo menos vou escrever sobre um século totalmente novo e esperar que isso me renove.

Peter Burke

Apesar do alerta nas escolas desde cedo, corriqueiramente esquecemos que proveito se pode tirar do conhecimento da História. Em tempos de memória caduca e anacrônica, o historiador Peter Burke é voz ativa em nos chamar a atenção. “É freqüente encontrar em seus textos uma ponte entre nosso tumultuado presente e os modos e costumes do passado”, escreveu o sociólogo brasileiro José de Souza Martins na orelha de O historiador como colunista (Civilização Brasileira, 2009), último livro inédito de Burke a ser lançado no Brasil, composto pelos artigos quinzenais que o historiador publica no jornal Folha de S. Paulo há 12 anos.   

Entre 1993 e 1994, Martins foi colega de Burke na University of Cambridge, onde o historiador inglês é professor emérito de história cultural. Peter Burke é hoje referência viva da Nova História, terceira fase da iconoclasta Escola de Annales. Sua linha de estudo privilegia a vida cotidiana e o percurso das ideias, as chamadas mentalidades, em detrimento à mera enumeração de acontecimentos político-militares. Credita-se a essa escola historiográfica, e a suas sumidades, como Fernand Braudel e Jacques Le Goff, o valor que hoje se reconhece nos objetos, na iconografia, no audiovisual e no relato oral como documentos tão importantes e reveladores do passado quanto os registros escritos.

Casado com a brasileira Maria Lucia Pallares-Burke, também historiadora, Peter Burke possui um relação próxima com o Brasil desde 1986, quando foi convidado a dar aulas na Universidade de São Paulo. Prolífico escritor, é autor de 28 livros traduzidos em cerca de 30 línguas – alguns já bibliografia básica em cursos de graduação em História no país, como Uma história social da mídia (Jorga Zahar, 1994) e Cultura popular na idade moderna, recentemente republicado em edição de bolso pela Companhia das Letras. Ele esteve na última Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), entre os dias 4 e 8 de agosto desse ano.

Junto com a esposa, Burke é responsável por divulgar a obra de Gilberto Freyre, homenageado da Flip desse ano, em meio ao mundo anglófono. Mas sua participação na Flip teve outra natureza. Ele integrou, ao lado de Robert Darnton, historiador do livro e diretor da biblioteca da Universidade de Harvard, a mesa sobre o assunto que mais agita o mercado editorial: o destino do livro na era digital. “As pessoas que ainda querem tocar o papel e cheirar o livro, e daí em diante, terão que estar preparadas para pagar mais. Será um tipo de sistema de dois níveis para os livros eu acho”, diz Burke na entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo que você confere abaixo.

No final de Fabricação do rei (Jorge Zahar, 2009. 2. ed.), você fala sobre quando os agentes publicitários começaram a desenvolver a imagem dos politícos, como Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Nos dias de hoje, na era digital, com a internet, e até no contexto brasileiro, com a Dilma pegando carona na imagem de Lula, como você vê esse processo de fabricação de políticos e líderes?

Peter Burke. Não tenho certeza se isso está mudando com a digitalização. Eu acho que a partir da era da câmera de televisão os políticos já estão em cena quase o tempo todo. Até quando eles pensam que estão fora do palco, estão encenando, porque tem havido esses famosos incidentes nos últimos dez anos em que gravadores estão ligados e [George W.] Bush, ou algum outro, pensa que estão desligados e começam a falar o que realmente pensam e é tudo captado. Bem, com e-mails é o mesmo problema. Você escreve e-mails achando que são confidenciais e no dia seguinte os vê publicados num jornal.

Já por muitos anos os políticos tiveram que conviver com essa ideia de que suas vidas privadas são públicas. Talvez as técnicas modernas estejam tornando ainda mais fácil invadir a vida privada do que antes, mas há uma longa tradição em invadir a privacidade. 

O que me interessou no caso de Luiz XIV foi que algumas dessas coisas já existiam no lado da propaganda. Já havia um comitê oficialmente estabelecido para cuidar da imagem do rei nas diferentes mídias daquele tempo, como tapeçarias, moedas e medalhas, gravuras. Enfim, eles olhavam para isso tudo e decidiam, isso vai dar ao rei uma boa imagem ou não? Devemos permitir que isso aconteça ou não? Bom, por outro lado, há todo um underground de imagens do rei, das quais o rei não se importava, que ele não podia impedir, as quais circulavam privadamente. Então, tudo isso já estava em cena no século XVII. 

Nessa época, essa fabricação da imagem se deu mais através da arte, certo? Através de esculturas, quadros etc.?

Burke. Ah, sim. Do lado oficial havia essas estátuas de Luis XIV erguidas em todas as cidades principais do reino. Em contrapartida, às vezes, à noite, pessoas escreviam grafites desrespeitosos nos pedestais e então, em Paris, foram colocadas barreiras ao redor [das estátuas]. Isso mostra que havia tanta gente querendo escrever coisas desrespeitosas que eles tiveram de cercar as estátuas.

Falando um pouco em relação ao conhecimento e às crianças que vão à escola hoje. Às vezes era necessário decorar muitas informações, mas agora se tem ferramentas como o Google, no qual se pode simplesmente buscar esses dados instantaneamente. Como você vê a educação combinando esses processos para as novas gerações?

Burke. Bom, como a maioria das mudanças, há um lado positivo e um lado negativo disso. O lado positivo é o que você mencionou. Não é preciso mais fazer a criança saber a data de batalhas de cor. Se por alguma razão for realmente necessário saber a data de uma batalha, eles clicam na Wikipédia, ou algo assim, e acham instantaneamente.

Mas eu ficaria bem desapontado se o ato de aprender coisas de cor desaparecesse por completo. Particularmente, a poesia. E isso ficou bem claro na Flip, porque lá estava Edson Nery da Fonseca que sabia de cor um poema de Gilberto Freire e sem nenhum pedaço de papel ele o recitou com grande paixão. Eu ainda posso recitar poemas de memória, não porque fui feito para aprendê-los, mas os li com tanta frequência para mim mesmo que acabei decorando-os. É um grande prazer poder recitar um poema e não precisar olhar em um livro ou na internet ou algo assim. 

Tenho um pouco de medo pelas crianças de hoje, que nasceram em um mundo onde a internet já estava lá. Será que elas vão perder essa arte? Não há razão para que elas tenham que perder. Nós podemos dispor as escolas para que aprendam esse tipo de coisa. E, de fato, há mais tempo para isso, porque elas já não estão aprendendo mais as datas. Mas elas ainda tem que decorar a tabuada. [risos] Eu não acho que todas as vezes que você queira saber quanto é 14 vezes sete se tenha que ir ao Google para descobrir. Ainda há um papel para o bom aprendizado oral à moda antiga, mesmo que um espaço menor, agora, graças a esses novos meios de comunicação. 

Sobre o copyright. Nós vimos uma grande mudança na indústria da música e a indústria do livro tem muito a aprender com o exemplo. Agora temos os e-books ganhando espaço. Diante das mudanças na indústria cultural e baseado na experiência da música, em que as grandes gravadoras perdem espaço e as pessoas estão parando de comprar CDs e DVDs, você acha que os livros também deixarão de ser vendidos? As pessoas poderão não comprar mais livros? 

Burke. Isso é difícil de dizer. É mais fácil perceber o que tem acontecido com os jornais, pois está ocorrendo mais rápido e porque eu acho que ler um jornal on-line é uma atividade bem mais fácil do que ler um livro on-line. Porque nós já aprendemos a ler jornais pulando rapidamente de uma manchete para a outra, quer dizer, é o que eu chamaria escanear em vez de ler. E então isso quer dizer que as vendas de jornais em papel caem e, ainda pior, os anunciantes não se interessam mais em anunciar num jornal que não vende cópias o bastante. Mas algo interessante aconteceu na Inglaterra quando esse russo bilionário, [Alexander] Lebedev, comprou o jornal Evening Standard, que perdia dinheiro, e decidiu torná-lo gratuito. Assim que isso aconteceu, o número de leitores, é claro, subiu, o que significa que os anunciantes voltaram. Então agora ele lucra. Quer dizer, dar de graça traz lucro e vender traz prejuízo [risos]. 

Eu não acho que isso acontecerá, na mesma escala, com o livro. Suponho que haverá dois preços para os livros agora. O mais barato on-line, mas as pessoas que ainda querem tocar o papel e cheirar o livro, e daí em diante, terão que estar preparadas para pagar mais. Será um tipo de sistema de dois níveis para os livros eu acho.   

E o quanto mais longo o livro, o menos confortável é, claro, lê-lo no Kindle ou algo assim. Eu estava falando ontem a noite: como você vai ler Guerra e paz [de Tolstói]? É não só um esforço para os olhos, é um esforço para os braços e eu não acho que a nova tecnologia é boa para livros longos. Assim eu temo que talvez no futuro as pessoas possam não escrever mais livros longos, que elas decidam escrever somente livros curtos, ou que tenham a diminuição do livro. Ok, eu não tenho nada contra o livro curto. Eu escrevo livros curtos, leio livros curtos. Mas eu ficaria muito triste se livros antigos fossem curtos e se as crianças de hoje fossem privadas de alguns livros longos do passado que são maravilhosos, como Tolstói. Mais uma vez, e isso é um lugar comum em história, há um lado bom e um lado ruim eu acho que em qualquer tipo de mudança que se possa imaginar. O que é bom para uns, é ruim para outros. O que é bom de alguma maneira, é ruim de outra. Nós temos apenas que conviver com isso. 

Há algum livro que você tenha escrito e possa dizer que é seu preferido, ou isso é muito difícil?

Burke. Para mim é muito difícil. O que apanho no mundo externo é que as pessoas acham que meu melhor livro é Cultura popular na idade moderna (Companhia das Letras), que em alguns aspectos é bom, mas o escrevi quando tinha 39 anos e eu gostaria de pensar que melhorei desde então, mas ninguém concorda, talvez porque aquele foi o livro certo na hora certa sobre o assunto certo. Eu gosto de pensar agora que eu tenho explorado alguns tópicos que o público, até outros historiadores, ainda não apanharam. Eu estou esperando que o que escrevi sobre a história da linguagem será um tema de maior interesse em dez ou 15 anos do que é agora. Eu gostaria de pensar que isso é porque eu sou um pioneiro. Mas é claro que as pessoas podem ter opiniões bem erradas sobre si mesmas. Estou estudando Gilberto Freyre, alguém com todos esses talentos, mas nem sempre ele avaliou bem qual o seu pior ou melhor trabalho. Então, se ele não pode fazê-lo, eu certamente não posso.

Qual o tema que hoje em dia o fascina mais? O que tem te motivado?  

Burke. O que estou escrevendo agora, e portanto tem puxado todo o resto para segundo plano, é o segundo volume da História do Conhecimento. Escrevi o primeiro que vai de Gutemberg a Diderot e agora eu achei um bom título para o período entre a Enciclopédia e a Wikipédia. Talvez eu não tivesse ousado fazer isso há dez anos. De qualquer forma, quando estava ensinando em tempo integral, era suposto ensinar os séculos XVI e XVII. Mas agora que me aposentei, não tenho período, posso escrever sobre absolutamente o que quiser. Eu comecei a pensar: como chegamos até onde estamos hoje desde os tempos de Diderot? Bem, a única maneira de descobrir é fazer a pesquisa, porque não há livro que conta essa história. Às vezes você quer ler um livro e esse livro não existe, então você acaba escrevendo o livro que gostaria de ler e esperava que alguém tivesse escrito. É bem excitante. Quer dizer, é perigoso para mim, porque eu nunca trabalhei nos séculos XIX e XX dessa maneira. Quando você vem trabalhando 14 anos em um período, começa a temer ficar banal e acabar repetindo a si mesmo. Bem, se eu não tiver nenhuma nova ideia, pelo menos vou escrever sobre um século totalmente novo e esperar que isso me renove.